sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Entrevista



Muitos guitarristas são vistos como egocêntricos e quando lançam álbuns solos instrumentais focados nas seis cordas este estereótipo aumenta ainda mais. Ao ler esta entrevista o leitor verá que este não é o caso do músico paraense Wael Daou. Afinal, o cara lançou seu primeiro EP “Ancient Conquerors” (2013) sem intenção nenhuma de chamar atenção e muito menos de mostrar sua habilidade com o instrumento, simplesmente por prazer em tocar e fazer música.  Obviamente que Wael trabalhou na divulgação de seu registro, porém o guitarrista ficou surpreso com a repercussão do mesmo e já planeja vôos mais altos. Com vocês: Wael Daou.

Sabemos que você estudou música no Líbano, país de seus pais. Conte-nos um pouco sobre sua formação como músico.
Wael Daou: Tive mais ou menos 1 ano de aulas com o Elias Njeim grande músico libanês, depois disso segui sendo autodidata, na época a internet não era uma realidade pra mim, então corria pras bibliotecas da universidade federal e estadual atrás de livros, e lá basicamente estudei muita coisa sobre música erudita. Fiz alguns cursos no conservatório Carlos Gomes, e prestei vestibular pra música na UEPA (Universidade Estadual do Pará), mas não concluí, pois decidi, na época, dar um tempo e trabalhar. Nisso parei de tocar por 4 anos.

Como músico e principalmente guitarrista, como você chegou até o Rock e ao Metal?
Wael: A culpa é do meu tio! (risos) Ele morou um tempo em casa quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, me escondia debaixo da cama dele pra ficar ouvindo Motörhead, Megadeth, e Judas Priest, mas foi quando eu ouvi Metallica a primeira vez eu disse: “mãe, quero tocar guitarra igual o Metallica”. (risos)



Falando de seu primeiro EP, “Ancient Conquerors”, como foi o processo de composição do mesmo?
Wael: Eu estava totalmente parado, 4 anos sem nem tocar violão. Um belo dia acordei e pensei: “Porra vou jogar tudo no lixo?”. Levantei e passei 3 meses desenferrujando! Fiquei frustrado de ver que eu não conseguia mais executar algumas coisas, e nesse meu dia a dia de exercícios começaram a surgir uma ideia atrás da outra, compus as 6 músicas mais ou menos em 6 meses, enquanto eu pesquisava sobre os conquistadores ia completando a história que eu queria que a música passasse. Os riffs transpassam agressividade, mas os arranjos por trás fazem o ouvinte entrar no clima da vida de cada um dos conquistadores.
           
Apesar de ser um disco instrumental você usou como temática grandes conquistadores do mundo. Como foi adaptar essas composições de acordo com cada nome que desbravou o mundo e por que você decidiu utilizar esta temática?
Wael: Eu acredito muito que o que o compositor compõe tem tudo a ver com sua vivência, experiências de vida, interesses, e principalmente como ele vê o mundo, comigo não foi diferente. Amo música instrumental, escrever uma letra sobre cada um seria bem mais simples do que passar através da música um pouco da vida de cada um dos conquistadores. Comecei a pesquisar sobre essas pessoas, seus feitos, suas batalhas, seus pontos fracos, seus erros, e me imaginei no momento de compor os temas, numa conversa com eles, em alguns momentos compus pensando na trilha de um campo de batalha, como ocorreu em Xerxes I. Arranjar as músicas foi bem mais complexo do que compor os riffs, pois foi no arranjo que o direcionamento foi dado ao ouvinte.

Trabalhos solos de guitarristas costumam ser direcionados aos próprios músicos. Em “Ancient Conquerors” nota-se que você não pensou só no lado virtuose das músicas, mas sim em algo mais variado e que abrange a musicalidade total das composições. Isso foi intencional para também atingir os leigos no assunto?
Wael: Virtuosismo qualquer pessoa com boas horas de estudo consegue adquirir. Pra que mostrar isso se nem sempre existe essa necessidade? Creio que a musica mais virtuosa do disco deve ser Xerxes I pelo seu início, o objetivo ali foi criar caos, como se estivéssemos vendo o ápice da batalha mais sangrenta de Xerxes, e isso transpassa nos ‘blastbeats’, nos contratempos das cordas, e nos arpejos. A técnica vem como ferramenta de expressão musical e não como o principal de uma composição.

Você compôs e tocou quase todos os instrumentos no disco, menos o baixo que ficou por conta de Marcos Saraiva. Por que optou por não tocar baixo e como foi trabalhar com Marcos?
Wael: Eu compus todos os instrumentos do CD, das cordas, ao piano, do baixo a bateria, gostaria de ser multiinstrumentista, mas não sou. A minha ideia era chamar músicos para executar em estúdio os arranjos, entrei em contato com vários, mas sempre sumiam, mesmo tendo oferecido o cachê que eles pedissem. Em relação à bateria, eu havia feito somente o essencial pra guiar o baterista que fosse gravar, mas quando vi que todos furaram, prestei mais atenção nos detalhes e editei as linhas de bateria. Já trabalhei com o Marcos há muitos anos, ele foi baixista do Alma Cog. Sua vida também havia dado uma guinada inesperada, e fazia anos que eu não o via, de repente esse maluco aparece com sangue nos olhos pra destruir novamente! (risos) Se não fosse pelo Marcos eu nunca teria aprendido a mexer nos programas de gravação, que possibilitaram produzir o CD. O Marcos além de um grande amigo é o melhor baixista com quem já toquei.

As composições do EP possuem influências de Metal, Rock, música clássica e erudita, além de Jazz. Qual é a sua verdadeira escola e o quão difícil é mesclar esses estilos, principalmente em um disco focado nas guitarras?
Wael: Minha escola é o Metal! Eu sinto prazer mesmo tocando isso! Mas a música não tem limites somente nomenclaturas. Como músico sempre tentei desenvolver uma identidade própria tocando e compondo, unindo o que eu gosto de ouvir. Nunca ouvi muita música, desde que comecei a tocar guitarra escuto Metallica, Megadeth, Iced Earth, Death e Jason Becker, no jazz Frank Gambale e Allan Holdsworth, e na música clássica Mussorgsky, Borodin e Dvorak. Mesclar isso tudo não é difícil quando se faz com naturalidade, o músico não toca com maestria o que ele não gosta de ouvir.

Como está a repercussão do EP até então?
Wael: Foda! (risos) Cara, compus o CD pensando: “Porra ninguém vai gostar disso!” e “Pelo menos fica pra posteridade, um dia meus netos ouvirão!” Mas graças a pessoas como você Vitor do Arte Metal, que trabalham incansavelmente apoiando a cena nacional, o CD teve uma repercussão incrível, muitas pessoas ajudaram nas redes sociais, amigos, familiares, músicos, realmente me impressionei.

O que você pode nos adiantar sobre um próximo trabalho? Há chances de você incluir vocais em algumas composições ou até montar uma banda em paralelo que conte com um vocalista?
Wael: Já comecei a produção do meu próximo CD instrumental, já tenho a temática também e ele já conta com 5 músicas, posso adiantar que desta vez vai sair sangue se espremer a capa!(risos) Terão sim algumas partes com vocais, mas não a música toda, minha esposa participará com linhas vocais em árabe, e outros vocalistas amigos meus também serão convidados. Banda é sempre complicado, trabalhar seriamente em conjunto é uma dádiva para poucos, mas estou me reunindo com uma galera boa, e o intuito é ‘trampar’ em cima de um Tecnical Death Metal. Ano que vem teremos muito trabalho.

Muito obrigado pela entrevista. Este espaço é seu para as considerações finais.
Wael: Cara eu que agradeço, pode parecer besteira, mas essa entrevista é um dos meus sonhos realizados, queria aproveitar o espaço pra agradecer a todos pelo apoio, força, e motivação, sem vocês de nada valeria isso tudo.


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