terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Entrevista com Ariel Coelho



Por Vitor Franceschini e Christiano K.O.D.A (www.somextremo.blogspot.com)

O professor, cantor e pesquisador Ariel Coelho tem como principais trabalhos dentro da música pesada as bandas Coda e Mindborn, porém já participou de diversas bandas covers e tributos, dentre elas as que homenageavam Pink Floyd, Yngwie Malmsteen, Iron Maiden e dezenas de outros grandes nomes do Rock/Metal. Coelho também é músico, mas passou a pesquisar e estudar técnica vocal há mais de 20 anos e é professor de canto (com ênfase no Rock) desde 1996. Saindo um pouco da linha bandas, gravações e partindo para uma entrevista mais ‘didática’ conversamos com o músico que tirou algumas dúvidas e deu algumas dicas de como ser um bom vocalista, principalmente no Rock/Metal.

Qualquer pessoa pode ser um bom cantor? Enfim, cantar é um dom?
Ariel Coelho: Essas são perguntas realmente muito frequentes quando o assunto é canto. E a razão disso remonta a própria noção arcaica de que a voz humana não é senão a expressão sonora da personalidade; e essa, por sua vez, é algo dado à priori ao homem, um fenômeno inato, um verdadeiro “presente” para podermos bem expressar nossas emoções; e como somos únicos, a voz também é única, pessoal e intransferível. Seguindo o raciocínio, se eu "nasci para ser cantor" (ou seja, "recebi" o dom), minha voz "veio" praticamente "prontinha" para tal finalidade. Mas se eu "não nasci pra coisa", nem adianta tentar que não rola. Pois bem, infelizmente esse pensamento ainda paira não apenas em nossa cultura no que diz respeito às noções gerais sobre canto, mas está engendrado no próprio meio pedagógico-vocal... de alguma maneira. Ocorre que com os avanços científicos em várias área do conhecimento - entre elas a psicologia, a sociologia, a antropologia, a neurociência, a laringologia, a fonocirurgia, a física acústica, a nanotecnologia e a pedagogia vocal, dentre outras - se desmistificaram muitos conceitos acerca da produção da voz humana em suas possibilidades técnico-estéticas. E está muito claro que, embora tenham algumas características físicas e mesmo psicológicas que podem facilitar o ingresso de uma pessoa no mundo canto já com uma eficiência técnico-vocal bastante significativa, basta uma pessoa se submeter a um processo de ensino-aprendizagem vocal que dê conta de suprir as condições fisiológicas e mesmo psicológicas para o ato de cantar, em todas as suas nuances e matizes estético-vocais. Ou seja, dom ou não (e cabe ressaltar aqui que a discussão do mérito cabe aos meios filosófico-teológicos... e não aos círculos científicos), a voz é passível de treinamento e adequação técnico-estético-vocal.

Rock e Metal são estilos que podem abranger qualquer timbre de voz?
Ariel: Bom, em termos estético-vocais, temos duas grandes vertentes conhecidas, a saber, a Estética Erudita e a Estética Popular. O Rock e o Metal são subgêneros da Estética Popular. Mas ao meu ver, antes de tratarmos a questão colocada mais de perto, precisamos abordar a própria problemática do fenômeno do crossover estético-vocal. Senão, vejamos. Ao lançarmos um olhar antropológico sobre a história do uso da voz humana para finalidades artísticas, verificamos que primeiro surgem as estéticas vocais, com todos os seus nuances e matizes (por exemplo, o jeito de cantar das lavadeiras enquanto executavam o seu trabalho ao ar livre; dos escravos que expressavam toda a sua dor e indignação quando se juntavam na senzala; dos cantores que animavam as festividades ou mesmo reuniões nos antigos palácios imperiais e/ou aristocráticos pelo mundo a fora; dos índios, etc.). E somente depois é que surgem as técnicas vocais, como tentativas de se manter, aperfeiçoar e mesmo perpetuar as estéticas vocais subjacentes. Não obstante, se verifica ainda que, na medida em que os povos vão se misturando (migração, socialização, globalização, etc.), ocorre uma verdadeira miscigenação estético-vocal, desdobrando num alargamento técnico-vocal dos cantores, de um modo geral; e isso acaba resultando no surgimento de novas estéticas vocais. Ou seja, o crossover estético-vocal configura-se num movimento antropológico cíclico, cuja estética vocal constitui-se sempre como início-fim e fim-início. Como um bom exemplo desse fenômeno, temos o teatro musical, cujas raízes incluem a opereta, a ópera cômica, o cabaret, a pantomina, o vaudeville e o burlesco, todas formas teatrais popularizadas no século XIX. Pois bem, em pesquisa de 2009 (tese de doutorado), Ana Cristina Pereira Sacramento, sobre a orientação do Prof. Dr. António Gabriel Castro Correia Salgado, da Universidade de Aveiro (Portugal), demonstrou de modo brilhante a prática como corriqueira entre cantores (as) do gênero: ou seja, para a execução das obras, os (as) cantores (as) acabam se utilizando – ainda que às vezes, de modo deveras intuitivo – tanto de técnicas vocais específicas do canto erudito (técnica belcantista, por exemplo), quanto àquelas desenvolvidas mais especificamente no e para o teatro musical (belting, por exemplo), cuja sonoridade, dito a grosso modo, enfileira-se mais à estética do canto popular. E acrescentaríamos, pois, que é exatamente pela elasticidade estética do canto popular que a prática do crossover técnico-vocal no âmbito do teatro musical se tornou possível. E o mesmo ocorre no Rock e no Metal: dada a elasticidade da estética vocal rocker (enquanto subgênero do canto popular), a prática do crossover técnico-vocal é lugar comum entre/para os rock singers. Nesse sentido, sim, rock e metal abrangem qualquer timbrística vocal.

Fazer vocal gutural prejudica a voz a longo prazo? Ou fortalece a garganta?
Ariel: Primeiro é preciso dizer que o gutural é um drive vocal no mínimo controverso. Na prática, no Brasil acabamos "classificando" como gutural todo e qualquer som vocal que seja "estrondoso" (leia-se: muito barulhento, bombástico, espalhafatoso), "cavernoso" (leia-se: urro, rugido, bramido), "demoníaco", "satânico", "diabólico", "desesperado", dentre outros sinônimos... E geralmente caracterizado por um rico espectro grave. Há mesmo quem separe o "vocal gutural" e os drives vocais. Mas como já dito lá na primeira questão, muitos avanços em ciência vocal foram realizados e os drives não escaparam do seu escrutínio. Em termos conceituais, o primeiro passo dado foi a realização um estado da arte para averiguarmos o quadro terminológico disponível acerca dos drives vocais com as suas variações sonoras. E acabamos por verificar que o conceito de "vocal gutural" encerrava em si muitas sonoridades possíveis e mesmo se desdobrava em vários outros conceitos, como "false chords", growl/growling, grunt/grunting, dentre outros. O que evidenciou a necessidade de decodificá-lo ‘melhormente’ do ponto de vista fisiológico; e, consequentemente, submetê-lo a um rigoroso processo de higienização conceitual. Na prática, a maior parte das sonoridades identificadas como sendo constituintes do "vocal gutural" se enquadram ou nos chamados drives supraglóticos, cuja quebra e amplificação de frequências é realizada em algumas estruturas maleáveis que ficam acima das pregas vocais, como as pregas vestibulares (popularmente e erroneamente conhecidas como "cordas falsas") e a epiglote (cujos músculos responsáveis pelo seu abaixamento rumo à glote são as pregas ariepiglóticas); ou nos drives mistos, cuja quebra e amplificação de frequências é realizada tanto nas estruturas supraglóticas, quanto nas estruturas glóticas em si (arranjos entre os músculos tireovocal, cricoaritenóideos laterais e interaritenóideos tranverso e oblíquos). Por fim, nenhuma dessas manobras citadas é prejudicial à voz, nem a curto, nem a médio, nem a longo prazo. Mas isso, logicamente, se tivermos/mantivermos bem condicionada a musculatura envolvida na manobra, além da retroalimentação constante da fixação das memórias musculares dos ajustes em questão.



Existem exercícios vocais específicos para quem faz gutural?
Ariel: Sim, existem exercícios específicos para cada tipo de drive vocal. Mas considerando que a execução segura dos drives vocais depende do desenvolvimento de um conjunto de capacidades técnicas, vale registrar que o treinamento inclui a ampliação do processo de alargamento estético-vocal do (a) rock singer para ampliarmos o escopo de memórias musculares de diferentes possibilidades de arranjos fisiológicos (e isso passa pela própria construção de um repertório de estudo estrategicamente escolhido para cumprir tal função), um trabalho minucioso de higienização técnico-fisiológica (exercícios/laboratórios de sensibilização proprioceptiva) e as adequações/readequações dos arranjos fisiológicos empregados inicialmente pelos (as) rock singers (esquemas vocais, efeitos vocais, etc.), de modo a desenvolver com eles (a) todas as suas capacidades técnico-vocais, considerando a elasticidade presente e mesmo desejada no canto rock e metal. Por fim, cabe ainda dizer que nesse contexto, os conhecidos vocalises ganham nova roupagem e são implementados no conjunto do treinamento de acordo com as suas funções fisiológicas subjacentes.

E técnica? Há algo para aqueles que querem fazer um vocal gutural o mais grave possível, mas que seja potente?
Ariel: Quando falamos em frequências no mundo dos drives, precisamos considerar as diferenças existentes entre o que os fonoaudiólogos chamam de pitch (que se refere à altura tonal mesmo da nota fundamental da voz) e o espectro sonoro (que pode variar em frequências numa mesma nota fundamental). Segue a definição do Wikipedia sobre o tema: "Espectro sonoro é o conjunto de todas as ondas que compõem os sons audíveis e não audíveis pelo ser humano. Explicando com mais minúcia, sendo um som complexo (som composto por mais do que uma frequência) constituído por parciais harmônicos e não harmônicos (ou inarmônicos), entende-se por espectro o conjunto de sons parciais, ordenados a partir de um som fundamental, segundo uma relação frequência/amplitude. Definindo o valor da frequência do som fundamental, é possível assinalar quais são e não são parciais harmônicos calculando, numa proporção de 2 para 1, os valores das frequências dos parciais harmônicos. Parciais inarmônicos são todos os outros que não obedecem à harmonia desta relação. O espectro de um som complexo caracteriza graficamente a forma da onda que o define, e está sempre presente ao distinguirmos uma voz de um instrumento musical, e estes dois de um carro a buzinar, entre outras situações. Esta onda resultante contribui para determinar a fonte (mecânica ou digital) de sons complexos a partir do som em si, para posteriormente poderem ser organizados por Timbre e outras propriedades." (fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Espectro_sonoro). E o fato é que ao executarmos drives supraglóticos, em função das estruturas responsáveis pela quebra da frequência fundamental serem mais maleáveis do que rígidas (incluindo aí as manobras dos próprios articuladores, como os lábios), as frequências graves do espectro sonoro ganham certo destaque quando comparadadas com as frequências agudas (lembrando que as frequências do espectro podem variar numa mesma nota fundamental). Daí que, de modo geral, o som da voz fica "mais pesado" quando executamos drives supraglóticos. Nesse sentido, para aqueles que querem fazer "vocal gutural" com frequências graves e com potência, o caminho é malhar e aprender a controlar os músculos responsáveis pela movimentação dessas estruturas supraglóticas.

É mais desafiador fazer vocal gutural ou vocal melódico agudo (lírico)?
Ariel: Toda e qualquer técnica vocal tem o seu lado "fácil" e o seu lado mais "difícil", mais desafiador, como você colocou. Seja com a fonte funcionando a todo vapor (refiro-me à laringe mesmo produzindo sons, dos mais simples aos mais complexos), seja com esta participando apenas passivamente (refiro-me às manobras onde, sobretudo o filtro é o definidor do aspecto sonoro final da manobra vocal em questão... um drive supraglótico simples, por exemplo), seja com a fonte e o filtro funcionando a todo vapor (drives mistos ou mesmo manobras na região de sinergia plena de adutores primários e secundários, por exemplo). E isso porque estamos falando o tempo todo de músculos e da necessidade de aprender a controlá-los, nos seus possíveis diferentes arranjos fisiológicos.

Existem vocalistas que fazem gutural cantando "para dentro". Isso é prejudicial para a saúde?
Ariel: Então, trata-se de uma manobra que alguns vocalistas batizaram de "Pig Squeal Inhale". Ocorre que tal manobra implica o ressecamento da mucosa das pregas vocais, provocado pela aspiração direta do ar. Nesse sentido, além de um bom condicionamento técnico-vocal generalizado, a utilização de tal técnica deve ser estar solidamente alicerçada num minucioso mapeamento dos trechos das músicas, de modo a estabelecer uma dinâmica mais abrangente entre os diferentes ajustes musculares (incluindo mesmo outros possíveis drives numa mesma música). De resto, além de manter a hidratação do organismo em dia, o vocalista que lança mão de tal ajuste precisa umidificar seu trato vocal e suas pregas vocais constantemente (no meio do cheio, inclusive), a título de minimização dos desdobramentos do ressecamento.

Enfim, quais as recomendações para quem quiser cantar rock e Metal?
Ariel: Pois bem, listo aqui alguns pontos que, a meu ver, são fundamentais aos vocalistas candidatos à rock singers: (1) Jamais confundir estilo de vida rocker com indisciplina; (2) Combater diária e assiduamente a ansiedade, não permitindo que a mesma ofusque o processo de ensino-aprendizado vocal, com todo o seu esquema passo-a-passo; e acabe lhes impelindo ao sempre permissivo jogo do passo-maior-que-a-perna; (3) Estudar canto e/ou técnica vocal com professores de canto popular devidamente habilitados para o ensino seguro das técnicas vocais próprias do canto rock; (4) Ser organizado, focado e disciplinado nos treinos diários de canto e/ou técnica vocal; (5) Investir constantemente no seu alargamento estético-vocal (crossover estético-vocal); (6) Investir constantemente no seu aprimoramento musical (instrumentos, história da música, teoria musical, percepção musical, composição, etc.); (7) Investir constantemente no seu aprimoramento antropológico-musical-rocker (história do rock com todas as suas vertentes, biografias, etc.); (8) Investir constantemente no seu aprimoramento artístico (teatro, dança, performance, etc.); (9) Investir constantemente no seu aprimoramento tecnológico-musical (microfones de qualidade, sistemas de monitoração com ou sem fio adequados, pedaleiras de efeito, etc.); e (10) Cuidar diária e assiduamente das suas saúdes física e psicológica (fonte: http://www.rockalivebrasil.com/2014/01/rock-alive-entrevista-ariel-coelho.html). É isso! Lets rock!



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