terça-feira, 24 de março de 2015

Entrevista



Os gaúchos do Brutal Morticínio lançaram no ano passado seu segundo trabalho “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais”. Optando por um Black Metal visceral, com variações de climas e andamentos, a banda traz letras em português que abordam o orgulho latino e a resistência dos povos indígenas. Conversamos com o vocalista e guitarrista Tormentor, que deu mais detalhes sobre a banda e sua postura e sonoridade diferenciada.

“Obsessores Espíritos das Florestas Austrais” saiu seis anos depois do debut “Despertar dos Chacais... O Outono dos Povos” (2008) que foi relançado em 2009. O Relançamento do primeiro álbum foi o motivo desse tempo maior entre um trabalho e outro?
Tormento: Saudações! Primeiramente gostaria de agradecer ao espaço concedido pelo zine para a horda. É um grande prazer poder fazer parte de suas profanas páginas. O álbum “Despertar dos Chacais... O Outono dos Povos” foi relançado em 2008 como você bem apontou e foi relançado no formato, digamos assim, oficial novamente em 2012 (uma vez que os outros lançamentos foram em CDR). Podemos colocar esse relançamento que explicaria em parte a demora no lançamento do álbum seguinte, entretanto passamos por outros problemas. A banda nesse meio tempo (2008-2014) passou por inúmeras formações, o que prejudicou um registro mais preciso e com qualidade desse período. O próprio “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais”, teve a sua gravação iniciada 2 vezes com formações diferentes e só conseguiu ser concluída em 2014.

E como foi o processo de composição do novo álbum? Enfim, quais principais diferenças destacariam entre os dois discos?
Tormento: O “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais” tem claramente uma pegada mais melancólica que o disco anterior, particularmente os sons que passaram a ser ouvidos pelos integrantes da banda eram mais melancólicos, eu particularmente ouço bastante DSBM. Na época de nosso primeiro álbum as influências eram bem próximas, mas havia também a influência de bandas de Thrash e bandas de Death e Black Metal. Acho que o novo álbum é um prosseguimento natural do primeiro, basicamente abordamos a mesma temática e temos um ponto de vista, social, cultural e político sobre temas como a colonização e a homogeinização da cultura ocidental. Acho que a realidade é ainda mais melancólica por isso o álbum soou dessa maneira, mas acho que ele apenas reflete ainda que inconscientemente a perspectiva melancólica que temos de mundo.

Em “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais” nota-se uma evolução natural e uma grande aproximação de sua identidade própria. Essa busca por algo mais característico é a intenção do Brutal Morticínio?
Tormento: É bom ouvir isso, mas isso tudo soou de uma maneira bem natural desde as composições passando pelos arranjos das músicas e também as nossas influências que passaram a acrescentar mais bandas de DSBM. Acho que essa diferenciação e a evolução é muito mais por conta do entrosamento que conseguimos manter com essa formação de banda do que necessariamente com alguma técnica que tenha sido mais trabalhada ou apurada por nós. Em minha opinião as bandas que tem a técnica em demasia tornam a sua música “matemática” demais transmitindo algo artificial e nenhum feeling, em suma é vazio. Nem de longe é o que buscamos com o Brutal Morticínio. Pelo contrário buscamos ao máximo que a música reflita a letra sobre a qual estamos falando e aproxime ao máximo essa névoa densa, dolorosa e violenta que é a história e a realidade em que estamos inseridos. 

Outra coisa que chama atenção no novo trabalho é o fato de a banda investir mais no Black Metal, deixando de lado um pouco das influências de outros estilos como o Death Metal, por exemplo. Vocês concordam?

Tormento: As minhas influências mais atuais ficam por conta de bandas como o Nocturnal Depression, ao qual tivemos a honra de dividir o palco, o Aras (Iran), Xastur, Bethlehem, entre outros. Poderia dizer que é um estilo de som um pouco menos técnico, mas no meu ponto de vista, é muito visceral e sincero. Particularmente sempre fui mais voltado para o Black Metal e sua interpretação mais ortodoxa, digamos assim, da realidade. Gosto das coisas em sua essência. Sobre o caso do Death Metal e sua cena, o que tenho visto ultimamente são muitas bandas desse estilo com um postura cada dia mais ‘mainstream’, com raras exceções é claro, e é importante aqui não generalizarmos.  Proliferam-se os festivais em que o cast é formado de bandas deste estilo musical e minha impressão é que grande parte das bandas não quer se diferenciar, ao contrário,  quer soar exatamente como as outras tantas já existentes, sem contar com a sua postura. Atualmente escuto poucas bandas de Death. Acho que até de maneira inconsciente fomos tomando esse rumo um pouco mais voltado para o Black Metal em comparação ao primeiro álbum. É lógico que na cena “Black” existem muitos problemas, mas não os vejo da mesma maneira ou da mesma ordem.



Aliás, apesar de investir em uma sonoridade mais visceral, vocês não deixam a técnica de lado. Fale-nos um pouco a respeito disso.
Tormento: Fico muito agradecido e tomo suas palavras como elogio, mas como comentei anteriormente não acho que o Brutal Morticínio seja necessariamente uma horda técnica, acho apenas que isso se deve ao entrosamento da formação da banda que pode produzir esse tipo de som e também como comentei tenho certa aversão por bandas muito técnicas exatamente por não transmitir o sentimento real da música e apenas algo bastante artificial. Acredito que apenas focamos um pouco mais no lado obscuro nas nossas composições o que fez com que o som soasse significativamente deferente em comparação ao primeiro álbum, além disso, as influências de DSBM e até mesmo de Doom Metal ficaram um pouco mais claras.


O Brutal Morticínio sempre procurou variar no andamento de suas composições. Este é um processo natural ou uma proposta imposta por vocês?
Tormento: Posso dizer que essas variações foram bastante naturais no som, mas ao mesmo tempo foram necessárias para que pudéssemos alcançar a atmosfera em que se abordava nas letras, por vezes algo mais agressivo, por vezes algo mais denso e com as bases que são bem característicos do Brutal Morticínio. Podemos dizer que chegamos muito próximos do resultado ideal em que planejávamos para o álbum, mas é lógico a criação nunca está concluída, houve sons que foram cortados e outros que na opinião da banda poderiam ter sido executados de maneira um pouco diferente, mas enfim, isso tudo faz parte do processo de gravação, composição e do próprio processo de criação.

Além dessa variação, há uma variação também no clima das composições passando por ares maléficos, melancólicos e outros mais densos. Este também é um fator que contribui para que a banda soe mais característica?
Tormento: Acredito que essa mistura de ritmos e variações é bem próprio de nossas influências que, como disse, entram desde o DSBM até o Doom, passando lógico pelo Black Metal mais tradicional e antigo. Essas variações acabam por serem bem características dessa formação mais atual da banda. Sinceramente não gosto de bandas que parecem exatamente iguais a alguma outra, por mais que a banda “original” por assim dizer, seja ótima. Acho que quando as pessoas resolvem montar uma horda deveriam propor algo novo, algo que jamais foi ouvido, em minha opinião não há muito sentido em soar exatamente como tudo o que já foi feito, é absolutamente sem sentido. È importante termos opinião e obviamente somos influenciados, mas sinceramente não apoio bandas cover e nem sequer bandas que são um espelho de outras que já existem.

Vocês optam por cantar em português. Por que decidiram cantar na língua pátria e o que procuram passar com suas letras?
Tormento: Ouvimos muitas bandas norueguesas, suecas, alemãs que cantam em seu idioma original, sem causar maiores espantos. Naturalmente compreendo a sua pergunta e sinceramente acho um pouco triste que poucas bandas do cenário nacional façam o som em português. Com o Brutal Morticínio a opção por cantar em português surgiu de uma forma quase que natural, cantamos sobre a nossa realidade, nossa história, estamos voltados principalmente para essas questões e para a cena nacional, tanto que as letras sempre versam sobre isso. Além disso, as bandas de nossa região, como a Sombriu, Serbherus e Movarbru seguem essa mesma linha dos sons compostos em português. As letras da banda em geral falam de orgulho latino americano e a resistência dos povos indígenas frente à opressão dos brancos cristãos. Buscamos tentar atuar combativamente as práticas do cristianismo/capitalismo que se permeia e se reproduz em meio a nossa sociedade. As letras da horda procuram versar sobre essas contradições próprias desse sistema explorador.

Aliás, o novo disco vem com as letras traduzidas para o inglês no encarte. Como e por que surgiu esta ideia, louvável, por sinal?
Tormento: A tentativa era de uma possível entrada no “mercado” internacional, principalmente na America latina que é o nosso principal foco, entretanto até o momento a cena destes locais, ou sei lá, os produtores e distros tem sido bastante fechados em relação às bandas do real underground nacional. Infelizmente a abertura e a boa aceitação que temos dentro da cena nacional não têm se repetido no cenário internacional. O que pude notar até o momento, é que principalmente a Europa protege bastante os seus “artistas” restringindo ao máximo a entrada de bandas de outras áreas do mundo. Podemos verificar isso, pois temos pouco contato com bandas asiáticas, por exemplo, ou mesmo com bandas da África.
  
Como foi trabalhar com Roger Fingle no estúdio Nitro. Com ele vocês alcançaram o resultado que almejaram na produção de “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais”?
Tormento: Sem dúvida o trabalho de Roger Fingle é realmente muito profissional e conseguimos soar muito próximo da maneira que gostaríamos. Buscamos junto ao estúdio Nitro exatamente essa aura um pouco mais obscura que fez soar no álbum e um toque de Doom Metal, sem perder em nenhum momento a agressividade, característica básica do Brutal Morticínio. Outro aspecto relevante é que fechamos uma boa parceria e é muito provável que os próximos álbuns do Brutal Morticínio serão em parceria com este grande produtor.

Além de divulgar o novo disco, quais são os planos para 2015?
Tormento: Pretendemos durante esse ano continuar com a divulgação do álbum que até então teve uma boa aceitação, embora ainda tenha repercutido um pouco menos que o outro, as cópias da banda e de várias distros já se encerraram. Acredito que isso seja um bom sinal. Queremos também seguir fazendo shows em divulgação ao álbum, sabemos das limitações do underground nacional, mas a nossa intenção é chegar a todos os cantos do país. Em paralelo, já estamos elaborando alguns sons para um futuro álbum, mas as coisas são bastante embrionárias ainda

Muito obrigado pela entrevista. Este espaço é de vocês.
Tormento: Eu é que agradeço em nome do Brutal Morticínio. É sempre muito prazeroso fazer parte das páginas de zines do necro underground nacional. Gostaríamos de aproveitar o espaço para deixarmos os endereços de contato!


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