quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Entrevista: Arandu Arakuaa




Por Vitor Franceschini

Completando quase 8 anos de carreira, a banda Arandu Arakuaa vem conquistando cada vez mais espaço não só no cenário metálico nacional, mas também em centros que apoiam a cultura brasileira de uma forma geral. Afinal, seu segundo álbum “Wdê Nnãkrda” (2015) reforça o que a banda se propôs a fazer, isto é, Metal mesclado com música indígena/folclórica brasileira e atingiu diferentes públicos. Zândhio Aquino (guitarra/vocal/viola/teclado e instrumentos típicos indígenas) conversou com o Arte Metal e falou um pouco mais do Arandu Arakuaa, de seu novo álbum e outros assuntos que circundam a banda. Completam esse time NáJila Cristina (vocal), Saulo Lucena (baixo) e Adriano Ferreira (bateria).

Bom, como esta é a primeira entrevista para o Arte Metal, gostaria que você contasse como surgiu essa ideia e interesse em fazer Metal se utilizando de elementos e temáticas indígenas?
Zândhio Aquino: O conceito do Arandu Arakuaa está intimamente ligado com o lugar onde nasci e morei até os 24 anos de idade, nas proximidades da Terra Indígena Xerente no estado do Tocantins. Desde cedo fui agraciado pelos espíritos dos meus ancestrais com o dom da arte, em especial de compor músicas e chegou um momento em que notei que precisaria usar esse dom para honrá-los e a favor da nossa luta. Onde eu morava era praticamente impossível encontrar músicos para um projeto como esse, vim pro Distrito Federal e aqui encontrei meus parceiros de banda que também estavam prontos para darem sua contribuição e decidimos fazer isso sendo parte de uma cena que amamos que é o Metal.

Desde quando você estuda o tema e qual metodologia você utiliza, enfim, você sempre está buscando conhecer mais esse tipo de cultura?
Zândhio: Na criação das músicas raramente existe um estudo direcionado, a composição de uma música é sempre a tentativa de materializar e eternizar um momento de inspiração. Sobre culturas indígenas é algo que faz parte de mim, sempre tenho interesse em conhecer mais e mais e consequentemente isso deve aparecer em nossa música.



Partindo para o novo trabalho “Wdê Nnãkrda”, como foi o processo de composição do disco? Houve alguma mudança na forma de compor em relação ao primeiro disco?
Zândhio: No “Kó Yby Oré” (2013) compomos apenas em tupi, no “Wdê Nnãkrda” compomos também em xerente, xavante e uma música em português, aliás, o CD todo é muito influenciado pelas culturas dos Povos Indígenas do Cerrado Brasileiro, em especial os Xerentes. A diversidade de idiomas indígenas visa chamar atenção para preservarmos as riquezas que ainda temos, dentre elas as línguas que ainda resistem e as que carecem serem preservadas. Eu diria que esse disco foi muito bem pensando e também existia uma motivação muito grande após o sucesso do “Kó Yby Oré”. Na verdade antes do “Kó Yby Oré” ser gravado eu já sabia exatamente o que queria liricamente e musicalmente para o próximo disco e meio que pirei nisso, queria muito mais elementos indígenas e ir mais fundos nos ritmos e harmonias de música brasileira. Acho que isso até assustava um pouco meus colegas de banda, mas quando o processo começou a rolar de fato, todos deram o sangue e estão orgulhosos da cria. Importante também mencionar o trabalho do Caio Duarte, além de ser um produtor e músico fantástico, é também um grande amigo e entusiasta do projeto.

Aliás, na questão musical e também num aspecto geral, qual a principal diferença do novo disco em relação ao debut “Kó Yby Oré” (2013)?
Zândhio: “Kó Yby Oré” tem músicas compostas entre 2003 e 2011, aquela coisa de primeiro disco mesmo. E por mais complexo que ele seja do ponto de vista musical ainda assim soa urgente e na cara. “Wdê Nnãkrda” é um disco bem mais climático e com arranjos mais elaborados: mais vocais limpos; mais cânticos indígenas; diversos instrumentos indígenas; mais viola caipira; mais elementos percussivos; e na parte que entra o Metal fica realmente muito pesado. Foi gravado de forma mais orgânica e com esse clima de música indígena permeando por todo o disco.

Até então o novo trabalho é o ápice do Arandu Arakuaa?
Zândhio: Sim. É a continuidade e evolução natural do nosso trabalho.

Mesmo trazendo mais elementos da música indígena e folclórica brasileira, “Wdê Nnãkrda” soa ainda mais pesado em seus momentos Heavy Metal. A banda se preocupou com essa mescla ou foi algo que surgiu naturalmente?
Zândhio: Surgiu naturalmente, talvez soe mais pesado devido à nossa evolução técnica.

Matheus Nachtergaele durante a apresentação da banda no Thorhammerfest


O disco leva o ouvinte a uma viagem musical, ou seja, é um estágio difícil de alcançar fazendo apenas música. Fale um pouco sobre isso, sobre esse tocante da sonoridade da banda.
Zândhio: A grande maioria das músicas desse disco foi composta apenas com voz, viola caipira e instrumentos indígenas. Essas ideias geralmente surgiam quando eu tinha algum contato com a natureza ou bem cedinho quando a cidade ainda estava silenciosa. Eram momentos de total comunhão com os espíritos da natureza e isso não se perde nem nos momentos onde o caos da sonoridade do Metal impera. Também durante o processo de gravação nos preocupamos em dar um caráter bastante emocional às interpretações, enfim, tentamos seguir à risca a estética da música. Talvez por esse motivo o disco esteja sendo muito bem aceito por indígenas e praticantes de xamanismo.

Impressiona como a vocalista Nájila está cada vez melhor. Como foram desenvolvidas as linhas vocais do disco?
Zândhio: A Nájila tem um timbre de voz muito bonito e único, pode cantar até música ruim que vai soar foda (risos). Quando ela entrou na banda abraçou essa ideia e pressão de cantar usando diferentes técnicas e de lá pra cá só vem evoluindo mais e mais. Quando vou compor começo quase sempre pelos vocais, os arranjos do instrumental são elaborados de forma que a voz possa soar forte. Nesse disco passei a cantar mais, a ideia era além de ter mais presença de cânticos indígenas também dá algum espaço pra Nájila respirar, já que as partes vocais exigem bastante dela ao vivo. Pesa também a nosso favor o fato do produtor Caio Duarte ser um dos melhores vocalistas do Brasil.

A música Hêwaka Waktû foi escolhida para o videoclipe. Por que a escolha, como foi e qual a importância a banda vê em trabalhar num vídeo?
Zândhio: Compus a letra dessa música no final de 2013 quando fui visitar amigos na Terra Indígena Xerente, em Tocantins e a parte instrumental composta em uma região próxima ao Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Ela fala sobre chuva justamente porque chovia bastante nos momentos em que foi composta. Chovia bastante também durante todo o processo de gravação do disco, parecia um sinal. Durante o processo de gravação o Caio Duarte também já ia dando ideias pro conceito do vídeo e íamos pirando juntos (risos). Nossas músicas têm essa ligação forte com a mãe terra, então tentamos também através dos vídeos despertar as pessoas para que voltem a se re-conectem com a natureza. Temos também a preocupação com a qualidade técnica, sempre queremos dar nosso melhor. Nosso público é exigente e sempre esperam que nos superamos a cada videoclipe.

E como está a repercussão de “Wdê Nnãkrda” tanto por parte da crítica, quanto por parte do público?
Zândhio: Está sendo ótima, até agora não vi ninguém falando mal. Com esse disco também ampliamos nosso público fora do Metal, em especial o público indígena.

A banda participou de um dos episódios da série sobre a vida e obra do lendário Zé do Caixão. Como se deu e como foi participar dela?
Zândhio: O diretor da série já conhecia nosso trabalho e entrou em contato comigo, foi algo simples e direto. A gravação rolou em abril deste ano durante a apresentação da banda no festival Thorhammerfest em São Paulo – SP, com o ator Matheus Nachtergaele (o eterno João Grilo de “O Auto da Compadecida”) subindo ao palco para sua personificação do nosso lendário Mojica. O episódio foi ao ar em dia 18 de dezembro de 2015 no canal de TV Space.  Foi uma grande honra e conquista pra nós sermos parte de um momento tão importante do cinema e da televisão brasileira.


Quais os planos para 2016, há algo que vocês possam nos adiantar?
Zândhio: Divulgar ao máximo o “Wdê Nnãkrda”, tocar ao máximo tanto em eventos de Rock/Metal quanto de cultura indígena e seguir compondo para o próximo disco.

Muito obrigado pela entrevista. Podem deixar uma mensagem aos leitores.
Zândhio: Só temos a agradecer ao Arte Metal por mais uma vez abrir espaço para falarmos sobre nossa música. Agradecemos imensamente também a nossos amigos que nos apoiam diariamente. Não tem essa de fã versus músico aqui, somos todos parte da comunidade Metal e estamos nessa por amor e pra divulgar e exaltar nossa cultura raiz.

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