quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Nervochaos: "Independente do ocorrido em Bangladesh, o NervoChaos sempre foi contra qualquer tipo de ditadura/opressão"



Por Vitor Franceschini

O Nervochaos lançou em 2017 seu melhor e mais versátil disco! Isso a própria banda concorda, afinal, no final do ano passado pudemos ver “Nyctophilia” em diversas listas de melhores do ano (inclusive aqui). Mas, o ano que poderia terminar perfeito, com o grupo batendo recorde de apresentações pelo mundo, teve seus percalços. Um fato chato e inusitado na Ásia colocou em evidência o assunto intolerância dentro do Metal (mais uma vez), além da banda (e nós) perder precocemente a guitarrista Cherry na luta contra o câncer*. Porém, o ciclo continua, e para falar sobre o novo trabalho, a atual formação, as turnês, o fato inusitado e outros assuntos, o incansável baterista Edu Lane conversou com o ARTE METAL. Completam o time: Thiago Anduscias (baixo) e Lauro Nightreal (vocal /guitarra).

Falando inicialmente do disco “Nyctophilia” (2017). Este trabalho é o retrato e junção das influências de cada integrante da formação atual do NervoChaos?
Edu Lane: Cada integrante traz a sua bagagem e as suas influências para a banda/sonoridade, mas acredito que o novo álbum não é unicamente um retrato disso e mais uma combinação disso com a constante evolução sonora e proposta da banda. Isso porque entendo que a banda já tem uma sonoridade própria, uma identidade e procuramos sempre preservar isso mas também sem ficar estagnado. A cada disco é possível perceber a evolução e a maturidade da banda, mas fica claro que sempre permanecemos fies as nossas raízes e a nossa proposta sonora, evoluindo, mas mantendo a identidade.

Aliás, o disco tem sido taxado como o melhor trabalho da discografia da banda até então (tanto por mídia, quanto pelo público). A formação atual, no entanto, é a melhor e mais consistente da banda em seus mais de vinte anos de estrada?
Edu: Também acho que esse é o nosso melhor trabalho até o momento e ficamos muito contentes em perceber que a mídia e o público também compartilham essa opinião. A formação atual com certeza é uma das melhores que a banda já teve e estamos vivendo um momento muito positivo para a banda.

Inclusive, bem antes de entrar estúdio e gravar o novo disco, a atual formação já havia excursionado bastante fazendo shows. Isso facilitou na hora de compor e gravar o disco? Aliás, vocês compuseram muita coisa na estrada ou fizeram isso em alguma pausa?
Edu: Com certeza as constantes turnês fazem com que a banda se entrose mais rapidamente. Faz também com que a gente tenha um grande convívio, o que acaba facilitando na hora de compor e trabalhar no material novo. Todos apresentam as suas ideias e aos poucos cada um vai escrevendo/montando as músicas em sua casa. Enviamos/trocamos as músicas entre os integrantes, que às vezes apresentam sugestões e alterações e assim vamos fazendo isso até chegarmos a um acordo em relação às músicas. A partir daí, a gente vai para o estúdio e começa a tocar juntos essas músicas e lapidamos ainda mais, todos juntos até entendermos que está do agrado geral. Então, para esse disco, a gente teve dois meses de pausa na agenda de shows e trabalhamos um mês em estúdio lapidando as músicas e depois ficamos um mês para gravar, mixar e masterizar. O trabalho de composição de material novo deve ser constante, independente de pausa ou de estar na estrada.  



O disco traz a banda mais versátil e técnica como nunca. Vocês se preocuparam que “Nyctophilia” soasse de tal maneira ou foi algo que fluiu naturalmente?
Edu: A gente buscava uma evolução de todos os nossos álbuns anteriores e também de superar todos eles. Sempre de forma orgânica e natural, mas sem perder a nossa identidade. A preocupação foi ter uma gravação de qualidade e bem orgânica, natural e sempre procurando seguir todo o conceito do álbum. “Nyctophilia” foi concebido de forma a louvar a escuridão, a noite, o lado negro... Então, desde a sonoridade, o conceito de arte, as fotos, tudo está em sintonia, entendo que conseguimos lançar o nosso melhor disco até o momento, mas já estamos trabalhando em material novo e buscamos superar o “Nyctophilia”.

Tudo bem que o NervoChaos sempre trouxe um lado ‘from hell’ (risos) em sua postura e algumas temáticas durante sua carreira. Mas, em “Nyctophilia” essa veia maléfica aparece com mais ênfase, concorda? Este é outro fator que reflete a atual formação, foi algo mais focado ou também veio de uma forma natural?
Edu: Concordo contigo, sempre tivemos a veia “from hell” e em alguns momentos mais intensamente, mais latente do que em outros momentos, onde abordamos também outras temáticas. Eu acredito que em “Nyctophilia” a gente focou em fazer um disco todo baseado em apenas um conceito, até por isso, o disco se chama “Nyctophilia”. Na minha opinião, o título do álbum ficou perfeito, pois transmite uma unidade e total harmonia com a temática das músicas e com a sonoridade. Acho que por isso há essa impressão que a veia “from hell” está mais em ênfase no disco. Talvez nos álbuns anteriores, essa harmonia tenha se mesclado mais com as outras temáticas e acabaram não transmitindo tanta ênfase “from hell” como em “Nyctophilia”.

Esse lado maléfico obviamente reflete na sonoridade também, que traz grande influência de Morbid Angel e nomes mais enraizados do Metal Extremo como Celtic Frost, por exemplo. Essas bandas são influências para o NervoChaos?
Edu: Somos muito influenciados por bandas como Morbid Angel, Sepultura (antigo), Celtic Frost, Discharge, Possessed, Sarcófago, Bathory, Cannibal Corpse, Vulcano, Deicide, Slayer, Venom, Exploited, Kreator (antigo), Autopsy, Ratos de Porão, Metallica (antigo) e muitas outras mais.

Uma nova faceta, dessa vez com uma pegada mais Death n’ Roll aparece na inusitada faixa Ad Majorem Satanae Gloriam. Gostaria que você falasse um pouco mais dessa música e suas características, além da escolha dela para se tornar um videoclipe.
Edu: A gente adora essa música desde a concepção dela e desde então a gente já queria fazer um videoclipe, incluí-la no setlist dos shows, e etc… É uma música um pouco diferente de tudo que já tínhamos feito até então, mas nunca fomos limitados sonoramente a apenas um estilo especifico. Isso é uma das coisas que eu mais gosto do NervoChaos. Fazemos música extrema e sempre tivemos várias influencias na nossa sonoridade que passam pelo Thrash Metal, o Death Metal, o Black Metal, o HardCore, o Doom Metal, o Grindcore, o Heavy Metal e etc. 

Além de Ad Majorem Satanae Gloriam, Ritualistic também ganhou um clipe com ângulo de 360º. Por que a escolheram, como foi gravar esse clipe e optar por este novo formato?
Edu: Eu gosto muito dessa música, acho que ela retrata bem a sonoridade da banda. Fizemos o clipe de “A.M.S.G.” totalmente conceitual, ou seja, um filme/clipe baseado na temática da música onde a banda não aparece tocando. Já em Ritualistic, a gente queria fazer um clipe com apenas a banda tocando, mas fugir um pouco dos clichês e então optamos por utilizar este novo formato (bem mais acessível atualmente) e inovar fazendo um clipe em 360 graus. 



Na produção, mixagem e masterização do disco vocês voltaram a trabalhar com Alex Azzali. Por que trabalhar com ele novamente e como foi dessa vez? Chegaram ao resultado esperado?
Edu: A gente trabalhou com o Alex em dois álbum antes desse. Na primeira vez, ele fez no estúdio dele apenas a mixagem e masterização (do disco “To The Death” de 2012). Na segunda vez, ele veio ao Brasil e gravamos juntos. Depois ele mixou e masterizou o material (o disco “The Art of Vengeance” de 2014) no estúdio dele, na Itália. No “Nyctophilia”, optamos por ir ao estúdio dele (localizado em Como, na Itália) e fazer o processo todo por lá, ou seja, gravar, mixar e masterizar. Estamos muito contentes com o resultado final do disco.

Alcides Burn foi o responsável pela arte de “Nyctophilia”, que também se diferencia das outras do Nervochaos, sendo mais soturna e fúnebre. Como chegaram ao artista e qual foi a relação da banda com ele? Enfim, vocês jogaram uma ideia para o Alcides ou deixaram que ele trabalhasse por conta a arte?
Edu: Conheço o Alcides há muitos anos e sei que é um grande artista. Sempre que o encontrava, falávamos de um dia fazermos algo juntos e essa oportunidade surgiu com o disco novo. Conversei com ele sobre o disco novo e transmiti todo o conceito e a ideia do disco, para assim ele poder criar a parte gráfica em sintonia com esse conceito. 

O NervoChaos sem dúvidas é a banda brasileira que mais faz turnês tanto pelo país quanto no exterior. Até que ponto a banda consegue aguentar com tantas viagens, qual a importância disso para vocês e como é para uma banda underground viajar para os países mais inusitados do mundo (em termos de Metal) como Nepal, Africa do Sul... Aliás, quais lugares mais peculiares por qual a banda passou durante todas essas tours?
Edu: Realmente é muito mais difícil do que parece fazer turnês, mas eu acredito que a única forma da banda sobreviver é fazendo o máximo de shows possíveis para difundir a nossa música e podermos evoluir como banda e nos dedicarmos inteiramente a ela. Então, enquanto houver saúde e demanda, a gente deve continuar no ritmo de longas turnês, pois tem feito muito bem à banda, aumentado a nossa base de fãs e recebendo cada vez mais reconhecimento. Amamos tocar ao vivo. Ao longo dos anos tivemos ótimas oportunidades de turnês indo para locais inusitados como à Índia, o Nepal, à Malásia, Singapura, á Indonésia, ao Camboja, á Coréia do Sul, ao Japão, á África do Sul e a Rússia. Tocamos em diversos locais e em todas as regiões e estados do Brasil, além de também fazer constantes turnês pela Europa, América do Sul, América Central e América do Norte. Todavia ainda há muito locais que desejamos poder visitar/tocar. 

Vocês também têm mostrado um trabalho virtual intenso através da internet, incluindo mini-documentários de algumas destas tours. Como surgiu essa ideia e como tem sido trabalhar em cima disso, além da repercussão?
Edu: A ideia é poder mostrar ao público um pouco mais sobre a banda, das turnês e tudo num formato, muitas vezes caseiro. Tem partes com a banda tocando ao vivo, coisas de backstage, na estrada e etc. Procuramos disponibilizar clipes/filmes de cada tour da banda, onde esse ‘diários’ a gente mesmo que faz, entre uma turnê e outra. A repercussão tem sido muito positiva e melhor do que esperávamos.  

Aliás, na turnê pela Ásia com o KRISIUN e, ao chegarem a Bangladesh, em um grande mal entendido, vocês foram detidos pela imigração, tendo o show no país cancelado. A história todo mundo praticamente já sabe (obs.: confira a história no link no final da entrevista). Após este episódio, como a banda vê a cena Metal brasileira tendo muitas pessoas apoiando e até defendendo candidatos ligados a partidos com cunho religioso, incluindo com ideais opressores, talvez até semelhantes à intolerância que a banda sofreu no país asiático?
Edu: Independente do ocorrido em Bangladesh, o NervoChaos sempre foi contra qualquer tipo de ditadura/opressão. Bangladesh foi algo que nos fez valorizar ainda mais a liberdade que temos aqui no Brasil de escolher o estilo musical que desejamos ouvir, escolher o show que queremos ir, escolher a roupa que vamos usar, poder se expressar... Muitas vezes, no nosso dia-a-dia, isso fica adormecido, pois estamos tão acostumados com essa liberdade, que acreditamos ser algo normal que todos têm direito. Bangladesh nos mostrou o contrário e fomos surpreendidos pela intolerância e preconceito. Realmente é muito triste saber que em 2017, esse tipo de postura ainda existe (como em Bangladesh e alguns outros locais também) e/ou pior, que há idiotas que lutam pela volta desse tipo postura.  

Gostaria de agradecer a entrevista e deixar este espaço para a banda falar sobre seus planos futuros e dar um alô aos fãs.
Edu: Eu que agradeço pela entrevista, pela oportunidade e pelo apoio. Quem quiser saber mais sobre a banda acesse www.nervchaos.net. Muito obrigado a todos que nos apoiam e vemos todos vocês na estrada.

Confira no link a notícia sobre o ocorrido com a banda e o Krisiun em Bangladesh:

*A banda preferiu não comentar o falecimento de Cherry.


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