quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Pena de quem não é eclético




Por Vitor Franceschini

Faz muito tempo que estou para escrever este texto, mas não encontrava palavras, e olha que vivo delas. Talvez seja por isso que a minha situação econômica nunca melhore (risos). Indo ao assunto, talvez esta palavra ‘ecletismo’ cause calafrios na maioria dos ‘headbangers’ mundo afora, principalmente no underground nacional, que é o que eu conheço de fato.

São raras as exceções de ‘metaleiros’ que passam, passaram ou passarão por uma fase radical dentro da música pesada, que aliás é o estilo que mais encontra ‘resistência’ na arte em geral (não tenho dúvidas). Alguns ficam nessa fase, outros passam e outros soam meio que entre o radical, mas nem tanto... neste caso o mais ou menos existe.

Com este que vos escreve não foi diferente. Lá pelo final da década de 90, mais precisamente entre 1999/2000 uma onda extremista permeou o miolo em formação aqui, até então com cerca de 16, 17 anos. Na mente, Death Metal e Black Metal (no fundo ouvia um ‘Dark/Gothic veiaco’ com muita ‘deprê’ imposta), principalmente com grupos de ‘logos’ que ninguém conseguia ler ou bandas de menos adeptos, visual não muito forçado, mas preto em sua essência e olhares tortos para ‘roqueiros alternativos’ e/ou que estavam chegando na cena.

A maior cagada foi se desfazer de diversos discos ‘não extremos’ entre vinis e CD’s (Ramones por exemplo, banda que amo até hoje) em trocas por qualquer banda extrema, pura ‘poseragem’, porque no fundo gostava de muita coisa alternativa, de ‘rocks’ mais simples, de Metal melódico, etc, etc, etc... Ainda bem que essa época durou pouco tempo, veio a boa fase com garotas (ahhh como poderiam voltar, risos) e a formação de uma personalidade musical (me desculpem se soou sem modéstia) que me fez ter o conhecimento que tenho hoje, mas principalmente a felicidade em ser uma pessoa eclética.

Não desrespeito em momento algum uma pessoa que não tem o gosto musical amplo, mas confesso que sinto pena muitas vezes. Eu explico. Eu lamento o que eu perdi em pouco tempo e poderia ser mais, no caso os anos que mencionei acima e hoje eu sinto orgulho quando me chamam de ‘farofeiro’ (no termo de ouvir muitos estilos diferentes) e até ‘sem filtro’, como um grande amigo já se referiu a mim outra vez (risos). Até me apresento assim.

Pelo fato de ter passado por essa fase radical, e ter superado isso, sei muitas vezes que as pessoas radicais sempre têm algo enrustido. Pode ter certeza absoluta que ao menos uma banda mais ou menos ‘alternativa’, uma música ‘pop’, ‘brega’ ou alguma coisa ela gosta, mas se auto reprime e com isso só sofre. E digo mais, quanto mais radical, mais coisas dentro de si esconde. Garanto! É questão de psicologia (cursei 1 ano da área aplicada à comunicação), de vivência, de experiência própria.

É latente que meu gosto é esmagadoramente pelo Metal e Rock pesado, senão não me dedicaria tanto a estes estilos, nem teria esse blog e quem me acompanha sabe disso. Mas, quem me conhece mesmo sabe que se restou algo de radicalismo é realmente contra a música de massa, que é descartável e imposta pela mídia. Mesmo assim me atenho de ficar julgando quem as ouve ou criticando, pois me ponho no lugar da pessoa, e eu detesto que falem mal do que eu gosto. A certeza é que esse tipo de música não acrescenta em nada, a não ser em momentos espontâneos de alegria, e isso já é algo.

O ouvido é igual o tato, o paladar... quanto mais consome, mais compreende, mais sente. No mais, continuo aqui tendo pena de quem sempre ouve as mesmas coisas porque impõe diversos obstáculos a si mesmo: “poxa, a banda usa bermuda”, “tem teclado aí”, “é muito pula-pula”, “meus amigos vão tirar o sarro que eu ouço isso...”” só pra mencionar o que acontece no meio Metal. Continuo também, após um dia pesado em termos de resenha, a colocar meu ‘poperô dos anos 80’ ou ouvir um Cartola, e quando tomo ‘umas a mais’ até aquele sertanejão raiz de verdade que faz a gente sentir ‘saudade da morena’. Isso sem contar no dia a dia ter praticamente música para TODOS os tipos de sentimentos. Pena de quem quando perde a fita cassete tem que se contentar com o silêncio.

*Vitor Franceschini é editor do ARTE METAL, jornalista graduado, palmeirense e headbanger que ama música em geral, principalmente a boa. Continua adorando bandas com logos inelegíveis e de poucos adeptos.

Um comentário:

  1. Excelentes colocações. Também passei pela fase radical, e também minha paixão principal é por música pesada, mas me permiti apreciar a qualidade técnica e o sentimento musical que aflora em qualquer estilo musical se feito com talento nato ou com amor.

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