quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Killing Yourself: Mantus - Marcelo Vasco (Patria, Mysteriis, etc)



Marcelo Vasco hoje é mais conhecido que Mantus. Afinal de contas, o primeiro se tornou um dos artistas gráficos mais renomados do cenário metálico mundial tendo feito capas de nomes como Slayer, Kreator, Malevolent Creation, Machine Head, Hatebreed, entre outras bandas de vários subgêneros do Metal. Mas, quem deu as caras antes no cenário, lá em meados dos anos 90 foi Mantus, quando surgiu com o Mysteriis e incluiu o Brasil no ‘hall’ das bandas de Black Metal sinfônico. Dali pra frente, vários projetos e mais uma banda que representa o Black Metal nacional com maestria, a mais direta Patria. Marcelo Vasco e Mantus juntos no mesmo corpo ajudaram a engrandecer um estilo em comum e a enriquecer o Metal de forma geral durante cerca de 20 anos, e continuam. Esse é o nosso convidado do Killing Yourself que comenta seus principais trabalhos como músico. 

“About the Christian Despair” (1999) – Mysteriis:
Esse disco sem dúvida foi o mais importante que eu já fiz, não só pelo contexto histórico que ele acabou alcançando com o passar dos anos, mas também pelo fato de ter sido meu primeiro disco de todos. Antes disso eu já havia gravado alguns materiais, claro, mas que só saíram em formato Demo-Tape, nada de fato oficial, profissional ou com uma distribuição a nível mundial como o “About the Christian Despair” teve. Antes dele eu só sonhava com essa possibilidade, e ter esse sonho realizado foi emocionante na época. Sem contar o orgulho que dava ver o disco na estante de grandes lojas pelo Brasil, na Galeria do Rock em São Paulo, na Cogumelo em Belo Horizonte/MG e até no catálogo da gigante Nuclear Blast. Foi surreal! E naquela época as coisas eram ainda muito difíceis e lentas. Foi um disco feito na raça, com puro suor e sangue! Gravamos ele em 1999. Já existia a internet, mas ela ainda estava engatinhando, digamos, não era tão popular e desenvolvida como hoje. Então quase todo o contato era feito ainda através de cartas. Éramos mais moleques e não tínhamos grana! Tivemos um orçamento super limitado da Demise Records pra gravar. Isso fez com que a gente gravasse o disco inteiro em 3 dias, o que era uma enorme loucura. Gravamos ele no extinto estúdio Manhattan, no Rio de Janeiro. Muitas bandas de Metal do Rio estavam gravando lá, inclusive a Demo-Tape do Songe D’Enfer, que adorávamos, foi gravada lá, então a escolha foi unânime. Foi uma época ótima e divertida, a banda era muito unida também. Eu morava na Ilha do Governador, onde fica o Aeroporto Internacional do Galeão, e lembro que eu pegava o carro de manhã bem cedo em direção ao estúdio, na Tijuca. Fica mais ou menos a uma hora de distância. Eu, Rogério (Agares - vocal) e o Leo (Malphas - batera), ambos insulanos, íamos sempre juntos. O Alex (Agramon - baixo) e o Nilo (quem gravava nossos teclados) moravam mais perto e iam ao nosso encontro lá. Gravamos a bateria e guitarras no primeiro dia, no segundo o baixo e os teclados e no terceiro dia os vocais. Foi uma correria desgraçada! Na semana seguinte iríamos começar a mixar, quando recebemos a ligação do dono do estúdio, pedindo para que a gente passasse lá, pois havia acontecido um imprevisto que precisávamos resolver. Ficamos extremamente preocupados, achando que pudesse ter dado alguma merda na gravação. Naquela época não se gravava em Protools ainda, então era tudo na fita DAT e ADAT. Dava muito mais trabalho e imaginar que pudesse ter dado algum problema nas gravações dava arrepios na gente! No final das contas não foi nada sério assim, a história foi até engraçada… Chegamos para a tal reunião, ficamos aguardando e notamos algumas bíblias espalhadas pelas salas do estúdio, uma até jogada no meio de uma escada. Achamos aquilo bizarro, ficamos comentando e dando risada. O dono apareceu, nos convidou pra entrar numa sala e, educadamente, nos explicou que o engenheiro de som que gravou a gente ficou assustadíssimo com o que viu e todo o conteúdo lírico do disco. Parece que o engenheiro de som era evangélico, com pai pastor e tudo mais, daqueles fervorosos, e pediu pra não trabalhar mais com a gente (risos). Sabendo dos detalhes, nenhum dos outros engenheiros de som do estúdio quis dar continuidade ao nosso trabalho também. Resumindo, fomos praticamente convidados a “nos retirar” do estúdio.  Ficamos de mãos atadas! O Carlos Lopes, da Dorsal Atlântica, que já havia sido engenheiro de som do mesmo estúdio, era amigo nosso, e num telefonema contou pro Alex, nosso baixista, que o pessoal do estúdio ficou horrorizado com a gente. Ele disse que contaram pra ele que o Rogério, nosso vocal, estava gritando palavras profanas e cuspindo sangue durante as gravações. Pintaram um cenário quase de filme de terror (risos). A verdade é que o Rogério teria que gravar todas as músicas numa tacada só, num único dia, e naquele momento de desespero, ele cismou que beber vodka iria ajudar. Resultado, ele foi ficando bêbado, sem controle do que tava fazendo e após um dia inteiro berrando, sem sentir a garganta por causa da vodka, acabou se machucando. Por isso que ele estava cuspindo sangue. E por estar bêbado ele devia estar gritando meia dúzia de porcarias profanas no microfone, nos intervalos das músicas, sem contar a faixa final do disco, em português, Sobre O Desespero Cristão, que pra quem conhece já fala por si só. As bíblias espalhadas pelo estúdio fizeram bem mais sentido depois que soubemos do tal problema (risos). E claro, eu rio contando essa história hoje, mas ter tido que sair do estúdio e parar a produção do disco nos deixou muito putos na época. Com aquilo tudo acontecendo, explicamos a situação para a Demise Records, pra tentar encontrar uma solução. Acabamos indo para Belo Horizonte de busão, mixar e masterizar no famoso estúdio Polifonia, e melhor, pelo grande Tarso Senra, que gravou o icônico “I.N.R.I” (1987) do Sarcófago, o “Bestial Devastation” (1985) do Sepultura, e muitas outras bandas mineiras de renome. Devido a pouca grana que tínhamos fizemos a mixagem e masterização em 1 dia também, numa sessão de 6 horas, se me lembro bem. Mas com certeza alcançamos um resultado infinitamente melhor do que alcançaríamos no estúdio do Rio sem produtor. Enfim, há realmente males que vem para o bem! Conseguimos finalmente terminar o disco e o resto é história! Ele foi lançado em Agosto de 1999 e foi incrivelmente bem recebido pelo público e mídia especializada. O Black Metal no Brasil estava num hiato e mesmo assim não haviam muitas bandas fazendo o tipo de som que fazíamos, mais sinfônico e melódico. Acho que isso favoreceu o sucesso do disco. Outro fator que chamou muita atenção foi a capa, da artista inglesa Sandy Gardner, que é bastante profana e impactante. Foi até comparada com a polêmica capa do “Rotting” (1989), do Sarcófago. Com esse disco também figuramos nos “Melhores do Ano” da mídia especializada brasileira e tivemos ótimas resenhas pelo mundo afora. Com tudo isso a primeira prensagem esgotou rapidamente e foi feita uma segunda. Isso até onde sabemos, claro. Naquela época os discos ainda não eram numerados, então o controle da gente em cima disso era mínimo. Mas sinceramente não fazíamos nada daquilo pensando em lucro, era nossa paixão, então não estávamos muito preocupados. Queríamos mesmo é que o disco alcançasse mais almas (risos). Hoje, o “About The Christian Despair” é felizmente considerado um clássico do Black Metal brasileiro, fomos citados como um dos mais importantes discos de Metal do Brasil pela revista Roadie Crew, e chegamos a sua maioridade, pois esse ano completou 18 anos desde o lançamento. Tudo isso obviamente é motivo de um enorme orgulho pra mim. Consigo gostar ainda mais do disco hoje, por uma questão emocional, talvez até nostálgica, pelo que ele carrega no seu DNA. É como uma parte de mim!

Mysteriis nos primeiros álbuns


“Fucking in the Name of God” (EP – 2000) – Mysteriis:
A história desse EP é engraçada. O underground brasileiro passava por uma fase pseudo-radical, onde os inúteis de plantão só sabiam criticar e falar besteira das bandas que queriam fazer um trabalho mais sério e profissional. Eles arrumavam motivo pra criar intriga por qualquer coisa, e como nós do Mysteriis, estávamos em alta na época, por causa do sucesso do “About The Christian Despair”, viramos um dos alvos desse grupinho de pessoas, os ditos ‘true metal’, vigilantes da cena. Quanta palhaçada (risos). No começo ficávamos até chateados, confesso, mas depois acabamos não ligando tanto, levando tudo com mais sarcasmo. Acho que foi esse sarcasmo que gerou o “Fucking In The Name of God”, de certa forma. Lembro como se fosse ontem, de estarmos todos num restaurante no bairro do Flamengo, no Rio, depois de um ensaio. Estávamos conversando e dando risada do que andavam falando sobre o Mysteriis (risos). Era tudo novidade pra gente e gostávamos de nos reunir e conversar sobre isso. Nós ainda estávamos meio magoados, eu acho, pois não entendíamos a falta de noção e inteligência de certas pessoas que nos criticavam, sem qualquer embasamento. Não eram críticas construtivas, era agressão livre. Nunca fez muito sentido pra mim. Não pareciam ser pessoas esclarecidas, com conteúdo ou motivo pra querer nos agredir daquela maneira. Eram sempre críticas vagas, baseadas em “telefone sem fio”, mentiras e até em estilos musicais. Diziam que não éramos reais, pois usávamos teclados no Black Metal ou porque éramos do calor do Rio, da praia (risos). Queriam cagar regras estúpidas e coisas assim. Hoje eu entendo e vejo que era só uma besteirada sem fim, de molecada. Inclusive existe esse mesmo tipo de sujeito até hoje, só não acontece mais por carta, é pela internet, os famosos ‘haters’ (risos). Enfim, eu sempre fui meio turrão, e com aquilo acontecendo, naquela janta pensamos que talvez provocar essas pessoas fosse interessante e divertido. Não que a gente não gostasse do que fizemos ali. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa extremamente eclética e gosto de quase todo tipo de música, mas o EP foi feito puramente pra provocar. Não foi a toa que fizemos uma música com pegada dance/trance “Die Christ!” ou uma versão da queridinha “Transylvanian Hunger”, do Darkthrone, com teclados e vocais femininos. Foi tudo muito bem arquitetado pra deixar o povo mais revoltado com a gente, acredite ou não (risos). Acho que nunca falei sobre isso publicamente. Aquilo foi uma maneira de darmos a nossa resposta àquele bando de acéfalo. Cheguei a me arrepender de ter feito isso depois, pelo motivo que foi feito. E eu odiei o resultado do EP, pra ser bem sincero. Mas hoje consigo enxergar alguma qualidade nele, até certo ponto. Só ainda odeio a produção. Uma curiosidade sobre esse EP é que eu já tinha as 2 músicas principais prontas (Fucking In The Name of God e Hysterical Zero Hymn) há bastante tempo e não eram músicas do Mysteriis. Era de um projeto meu, chamado Reptilian, com o Valério (Lord Kaiaphas), que na época era vocalista da banda norueguesa Ancient. Então quando surgiu a ideia de fazer esse EP, achei que aquelas músicas poderiam gerar um bom resultado, pois foram compostas com um propósito completamente diferente. Como era um projeto que ainda estava “no papel”, expliquei pro Valério e pedi pra usar as músicas. Houveram adaptações, claro, mas o esqueleto era aquele. Tenho guardado a fita DAT das gravações do projeto original até hoje. Só infelizmente não consigo digitalizar, pra relembrar como elas soavam. Tenho muita curiosidade.

“From the Dark Flames of the Christian Holocaust” (Split – 2002) – Darkest Hate / Black Winter Night:
Esse material foi feito sem muito compromisso e ambos os projetos eram meus. Sempre gostei de estar envolvido com outros projetos e acho que essas eram ideias que não se encaixavam tão bem no Mysteriis, tinham outra pegada. O Darkest Hate era mais rápido e extremo, com uma temática mais bélica, e o Black Winter Night tinha aquela abordagem mais simplista e crua, do Black Metal do começo dos anos 90. Acabei resolvendo gravar pra registrar, até que um dia um conhecido meu de um selo gringo, pra quem eu já havia enviado o material, fez a oferta de lançar oficialmente, como Split, no formato fita cassete. Eu topei! O legal é que o Darkest Hate era eu e o Leo, batera do Mysteriis, mas ele começou fazendo só os vocais, já que a batera era eletrônica na primeira Demo-Tape “Total Destruction”. Na segunda Demo, “Unholy Devastation”, que faz parte desse Split, ele tocou bateria acústica mesmo. Nós estávamos conversando com o Wagner, do Sarcófago, pra ele gravar os vocais. Volta e meia conversávamos por telefone. Ele é um cara bem divertido (risos). Dizia que já não sabia mais berrar, que estava parado, que eu teria que ter paciência etc. E ele estava num período conturbado com as aulas na faculdade também. Acabou não rolando no final das contas. Então o Leo gravou os vocais de novo. Gosto bastante dessa segunda Demo-Tape. É bem paulada e direto ao ponto, músicas curtas e extremas! Já o Black Winter Night é mais pé no freio. O projeto começou comigo e com a Michelle, que fez os vocais femininos no “Fucking In The Name of God”, do Mysteriis. Mas no Black Winter Night ela ficou responsável pelos teclados e letras. O Rogério “Agares” fez os vocais, eu toquei bateria, o Marcelo “Mictian”, do Unearthly, gravou o baixo e o guitarrista Kaften, na época também parte do Unearthly, gravou as guitarras. Queria muito ter esse material digitalizado, faz tempo que não ouço. Tenho a fita cassete original, mas infelizmente o áudio estragou com o passar do tempo.

“Antichristian War Propaganda” (2004) – Lux Ferre:
Grande banda lusitana do meu amigo Pedro “Devasth”. Estávamos em contato e lembro de ter mostrado uma música do Mysteriis, isso na época das composições do “Stigmati Diaboli” (2002/2003), quando eu estava tocando bateria. Era uma música bastante rápida. Acho que ele gostou do que ouviu e sentiu que talvez eu pudesse gravar as bateras do disco do Lux Ferre. Foi o que aconteceu (risos). Gosto muito da banda, ele me mandou as guias das músicas no click, só guitarras, sem bateria por cima, e fui treinando até o dia de gravar. Gravei tudo em um dia, num estúdio no Rio. Foi um prazer ter feito parte desse disco e ter contribuído com essa ótima banda.

Darkest Hate Warfront


“Satanik Annihilation Kommando” (2005) – Darkest Hate Warfront:
O Darkest Hate Warfront é uma continuação do Darkest Hate, claro. Mas numa época um pouco diferente, pois já não tinha o Leo fazendo as coisas comigo. Ele já não tocava mais bateria no Mysteriis e não tínhamos o mesmo contato de antes. Mas foi ele quem gravou o disco no seu estúdio Fast Forward, no Rio. Nesse disco usamos bateria eletrônica, criadas por mim e pelo pedro Devasth, do Lux Ferre, quem eu acabei chamando pra fazer os vocais. Pedro gravou os vocais em Portugal e eu gravei as guitarras e baixos aqui no Brasil. Depois mandei pra ele de volta e foi tudo mixado e masterizado em Portugal. Esse disco já estava pronto desde o começo de 2003 na verdade, ainda antes de eu gravar as baterias pro Lux Ferre no “Antichristian War Propaganda”. O problema é que ele seria lançado por um selo americano chamado Regimental Records, que deixou a gente na gaveta por um longo período, sem motivo ou explicação. Simplesmente não lançava o disco e ficava dando desculpas esfarrapadas pra gente. Num determinado momento cansamos de esperar e chutamos o balde. Foi quando num contato com a Ketzer Records, da Alemanha, mostramos o material e conseguimos fechar um contrato pro disco finalmente ser lançado, mesmo que tardiamente. Ele só saiu em 2005 e recentemente foi relançado aqui no Brasil inclusive, com as demo-tapes de bônus. É um disco bem porrada e sem frescuras! O pessoal chama ele de “Panzer Division” (N.E.: referência ao disco “Panezer Division Marduk” do Marduk, lançado em 1999) brasileiro (risos), pelo extremismo.

“The Aftermath” (2007) – Darkest Hate Warfront:
Nessa época o DHW tinha virado banda. Digo isso, pois antes era apenas um projeto, sem muito compromisso. Mas no período do “The Aftermath”, o Mysteriis havia parado com as atividades por um momento, e decidimos migrar o line-up, fazendo do DHW uma banda de verdade, ensaiando e tocando ao vivo. Foi um teste que acabou dando muito certo. Fizemos muitos shows pelo Brasil, alguns ao lado do Gorgoroth, Belphegor, Watain e Matanza. Foi nesse meio tempo que trabalhamos no segundo disco. Gravamos ele no Rio, no estúdio HR, do nosso grande amigo Flávio Pascarillo. Dessa vez não usamos bateria eletrônica, fui eu mesmo que gravei a bateria. O material seguiu na linha do primeiro, mas não tão extremo, e tem uma pegada mais Thrash e Death. É um disco mais diversificado. Honestamente não gosto da produção que demos a ele até hoje, tem uma sonoridade estranha demais, mas reconheço que existam músicas boas ali, porque elas ao vivo funcionavam muito bem. Era uma pancadaria só (risos).

“Reign ov Opposites” (2008) – Vinterthron:
O Vinterthron foi uma espécie de continuação do Ancientblood, que era um outro projeto meu, ‘one man band’, que eu tinha no começo de 2000. E nesse disco eu mantive dessa maneira, gravei todos os instrumentos e vocais, fiz tudo sozinho. É um material pra quem gosta de Black Metal mais ortodoxo, aquele dentro da caixa, com sonoridade escandinava, sem muita firula. É um trabalho legal, de vez em quando eu ainda ouço pra relembrar. Foi meu último trabalho gravado no Rio, pois em meados de 2008 vim morar na Serra Gaúcha e fundei o Patria.




“Hymns of Victory and Death” (2009) – Patria:
Eu criei o Patria logo que me mudei pro Sul, em 2008. Mas comecei a gravar as músicas em 2009, junto com meu amigo Maurício (Ares Wrath / Vento Negro). Na verdade ele só participou da primeira faixa, a própria Hymns of Victory and Death. Depois acabou saindo fora, apesar de eu ter mantido ele como parte da formação, que na época era ainda quase “ilustrativa”. A gravação é bem amadora, fiz tudo aqui em casa mesmo e sem ter muita experiência. A ideia era que soasse bem rústico e barulhento, então acho que conseguimos (risos). O Luis Henrique “Fog”, do Songe D’Enfer, é que era pra ter feito os vocais no disco. Ele estava morando no Canadá e estávamos em contato por telefone. Eu mandei o material e ele gostou bastante, inicialmente ele é que gravaria. Mas a vida dele parece que se complicou um pouco por lá e acabamos perdendo o contato depois disso. Então conheci aqui em Carlos Barbosa o Troian “Triumphsword”, que tocava nas bandas Thorns of Evil e Land of Fog. Ficamos amigos e convidei ele pra gravar. O resultado ficou muito bom, exatamente da maneira que eu esperava, e ele segue como vocalista do Patria até hoje. O “Hymns…” foi lançado por um selo russo, chamado Monokrom. Foram eles os primeiros a acreditarem no trabalho e música do Patria. Escrevi antes disso para alguns selos brasileiros e ninguém quis, não deram muito valor. Em 2014 a Drakkar Productions, da França, relançou o “Hymns…” no formato Digipack.

“Sovereign Misanthropy” (2010) – Patria:
Esse foi feito da mesma maneira que o “Hymns…”, gravei toda a parte instrumental e o Troian gravou os vocais. Tudo feito em casa e sem muita preocupação. Eu mesmo mixei e na masterização tive a ajuda do meu amigo Fabiano Penna, do Rebaelliun, que deu uma força. Mas o material era muito mal gravado, super tosco, não tinha muito o que fazer (risos). Mas carrega um feeling que vale ouro, na minha opinião. Foi novamente lançado pela Monokrom, da Russia, que estava fazendo um trabalho ótimo pra gente e colocando o nosso nome aos poucos em evidência no mercado europeu.

“Hell's Wrath Battalion” (2011) – Hellscourge:
O Hellscourge é um desses projetos sem compromisso que eu acabo inventando nas horas vagas (risos). Eu adoro esse estilão mais sujo do Death/Thrash dos anos 80 e nunca tinha nada que se encaixasse nesse contexto. O projeto sou eu e o Troian apenas, eu gravo as cordas e ele faz as bateras e os vocais. Tudo nasce praticamente do improviso, riff por riff, sem ensaios ou planejamentos. A gente chegava aqui em casa, ele sentava na bateria, eu pegava a guitarra e íamos montando no instinto, vendo o que funcionava ali na hora e já gravava. É uma maneira muito interessante de fazer as coisas, pois fica incrivelmente natural e acabando transparecendo essa verdade na música. A produção desse disco é imunda e abafada, parece uma Demo-Tape ruim e perdida dos anos 80 mesmo (risos). Adoro esse material!

“Liturgia Haeresis” (2011) – Patria:
O “Liturgia Haeresis” é um álbum de transição do Patria, eu acho. Nós estávamos mantendo aquela mesma linha dos primeiros discos, bem suja e distorcida, mas já permitindo alguns experimentalismos aqui e ali. Era mais melódico também, tinha uma textura, mesmo que discreta, diferente do restante. Acho que isso acabou chamando atenção. E foi a mesma fórmula de sempre… Gravamos de forma amadora, aqui em casa, e foi através desse trabalho que conseguimos assinar um contrato com a Drakkar Productions, da França. Foi um disco que elevou o nome do Patria a um novo patamar, principalmente lá fora. A promoção em torno do disco, do nosso nome e a distribuição foi bem mais ampla do que estávamos acostumados. Deu pra sentir que as coisas estavam mudando lentamente.

“Unmerciful Blasphemies” (2012) – Hellscourge:
Novamente uma época que bateu saudade de fazer barulho oitentista (risos). Acho que não consigo ficar um ano sem inventar e gravar alguma porcaria. Esse álbum já tem uma produção mais “fina”, se é que podemos chamar dessa forma. Ele é mais pesado e denso que o primeiro, talvez mais rápido também… A raiz é a mesma, bem suja e agressiva, mas traz alguns elementos distintos à superfície, algumas melodias espalhadas. Talvez soe até um pouco mais moderno, não sei. E não no mau sentido! Dessa vez tivemos o lançamento exclusivamente brasileiro, através do tradicional selo Heavy Metal Rock.


Hellscourge


“Hellsurrection” (2012) – Mysteriis:
“Hellsurrection” é o álbum que marca o retorno do Mysteriis, depois de alguns bons anos de férias, e com a sua formação original, algo que eu pensei que nunca fosse possível acontecer. Foi um trabalho importante e emotivo pra mim por isso. Estávamos todos distantes, eu morando aqui na Serra Gaúcha, o Leo e o Alex morando no Rio e o Rogério em Joinville, em Santa Catarina. Então o processo de gravação não foi dos mais fáceis e levou algum tempo pra ser concretizado. Eu que compus o material inteiro e gravei as guitarras e teclados aqui no Sul. O restante foi gravado no Rio, sempre que a gente conseguia se encontrar. A mix foi feita pelo Leo no Rio e a masterização em Berlim, na Alemanha. O disco tem uma pegada que lembra mais o “About The Christian Despair”, e foi proposital. Sempre achamos que aquela sonoridade fosse a marca do Mysteriis. E mesmo depois de tantos anos, tentamos resgatar aquela aura. Eu considero um disco muito bom. Mais ainda hoje em dia, quando eu esqueço dele e consigo ouvir como um mero espectador. Nele tivemos também participações honrosas em algumas músicas, do Valério “Lord Kaiaphas” (Ex-Ancient), do Thomas Backelin do Lord Belial (Suécia), do Troian “Triumphsword”, que toca comigo no Patria, e do Fabiano Penna (Reballiun) nas faixas orquestradas. O lançamento aqui no Brasil foi feito via Heavy Metal Rock, que se tornou nosso selo oficial desde então. Por falar nisso estamos gravando um disco novo, chamado “Dementia”, que sairá em 2018, celebrando os nossos 20 anos de existência.


Patria


“Nihil Est Monastica” (2013) – Patria:
Esse é um disco meio louco, a gente estava com ideias um pouco diferentes do habitual, nos permitindo experimentar mais e trazer novas influências pra música do Patria. Eu considero um disco sem pé nem cabeça, tem um clima bem mais obscuro que o “Liturgia…”, mais melancólico, experimental e com pitadas de progressivo. Eu gosto demais dele. Foi feito quase que no improviso, como geralmente fazíamos com o Hellscourge, e novamente no nosso super método amador caseiro (risos). A mistura disso tudo resultou num disco surpreendente pra gente. Pra completar tivemos a participação do Christian, do Spell Forest, nas faixas orquestradas, que ficaram incríveis. Foi nosso segundo disco pela Drakkar Productions, da França. Ele teve uma repercussão muito boa mundo afora e foi com ele que conseguimos fechar contrato com o selo norueguês Indie Recordings. Sempre dando um passo a frente…

“Individualism” (2014) – Patria:
Eu diria que o “Individualism” foi o divisor de águas do Patria, tanto pela sonoridade e produção, que já alcançou um nível muito maior, como pelo lado comercial de promoção e distribuição do disco. Foi a primeira vez que de fato estávamos em todos os lugares, devido ao trabalho da Indie Recordings, que já era um selo bem maior que a Drakkar e pode nos oferecer uma infra-estrutura mais ampla. Foi nosso primeiro álbum não gravado em casa (risos). Nos obrigamos a ir para um estúdio e tentar obter uma qualidade superior de gravação. No entanto a fórmula foi a mesma, eu gravei todo o instrumental e o Troian os vocais. Apenas a mixagem é que eu fiz em casa. Naquele momento eu já tinha um pouco mais de experiência e acabei conseguindo um resultado aceitável. Mas a masterização, feita pelo meu amigo Øystein G. Brun (Borknagar), em Bergen/Noruega, é que realmente trouxe toda aquela sonzeira a tona. Ficamos muito satisfeitos com o resultado que alcançamos com esse disco na época. E musicalmente estávamos mais maduros e já tínhamos uma certa identidade desenvolvida com o passar dos álbuns. Tudo isso ajudou bastante o sucesso do disco. Nosso amigo Fabiano Penna, do Rebaelliun, escreveu as faixas orquestradas, fechando o trabalho com chave de ouro. O material teve uma repercussão super positiva ao redor do mundo e foi graças a ele que recebemos o convite para tocar no infame Inferno Festival, em Oslo, na Noruega. Uma experiência fantástica que tivemos… Tocar na capital mundial do Black Metal foi surreal demais. Com direito a um ensaio pré-show no estúdio privado do Dimmu Borgir, com assessoria do próprio Stian “Shagrath” (risos). Espetacular!



“Ars Arcanvm Vodvm” (2017) – Le Chant Noir:
O Le Chant Noir foi um projeto iniciado pelo Leo, que consecutivamente me chamou pra participar e que finalmente depois de quase duas décadas, conseguiu nos unir ao nosso amigo de longa data, o Valério “Lord Kaiaphas”. Sempre quisemos estar num projeto juntos e nunca havia funcionado. A ideia básica desse disco foi não ter muros, criar algo totalmente diferente do que ouvimos por aí hoje em dia, de vanguarda, desprendido de rótulos ou qualquer  direcionamento específico. Foi o que fizemos, a música foi nascendo e tomando um rumo que nem nós sabíamos onde iria dar. Essa é a graça do Le Chant Noir pra gente. É divertido de fazer e acaba gerando um resultado final surpreendente. É claro que o núcleo é Metal, pois está no nosso sangue e é difícil de se distanciar disso, mas quem ouvir esse trabalho com a devida atenção vai acabar entendendo que não se trata de um álbum qualquer, modéstia a parte (risos). Sem dúvida não é música para todos os ouvidos, é bem complexo e refinado, e pode parecer monótono para ouvidos despreparados, o que é algo positivo e quase intencional. Também tivemos uma preocupação extra na produção, para fazê-lo soar diferente das produções mais modernas e chatas de hoje em dia, de plástico, tornando as bandas todas iguais. Olha a loucura… As bateras foram tocadas e gravadas pelo Leo, sem pele de resposta, num porta estúdio de 4 canais, e com pratos de marcas inferiores. As guitarras e baixos eu gravei em casa, aqui no Sul, e os vocais do Valério idem, em Israel, onde ele mora já há muitos anos. Porém tivemos a participação de uma orquestra de verdade, em várias partes do álbum, capturadas na sala de concerto de um conservatório no Rio. O Valério escreveu a maioria das letras, que são fantásticas e combinou muitíssimo bem com o conceito do álbum, mas de uma maneira diversificada. São ótimas histórias! Vale à pena ler enquanto escuta o som, é uma viagem. Enfim, misturamos todo tipo de influência que cada um de nós carrega no DNA e parimos essa insanidade sonora que é o Le Chant Noir. Um projeto despretensioso mas que certamente terá uma continuidade num determinado momento. Não acabou (risos).



“Magna Adversia” (2017) – Patria:
Esse talvez seja o outro álbum mais importante da minha carreira até o momento. Por uma série de fatores…

Primeiro que foi um álbum que deu um trabalho absurdo pra gravar, fomos extremamente exigentes e tínhamos o Øystein (Borknagar) como nosso co-produtor, sendo mais exigente ainda, nos empurrando até o limite, para alcançarmos a melhor qualidade de execução, interpretação e captura possível. Segundo que levamos em torno de seis meses pra gravar, sem contar outros seis meses compondo e preparando a pré-produção, ou seja, um ano inteiro e levado a fio, sem intervalos. Além disso, foi a primeira vez em que houve um método mais tradicional de composição e arranjo, pois nos juntamos todos no estúdio de ensaio e passamos riff por riff, até a construção final das músicas. Então todos da banda colaboraram no processo, gerando um resultado muito mais rico e consistente. Pudemos testar, acrescentar, mudar e deletar detalhes das músicas, algo que nunca havíamos feito com tanta dedicação e clareza nos álbuns anteriores, já que eu geralmente compunha tudo sozinho e o que saia na gravação era o que ficava. Outro fator primordial nesse álbum foram as baterias, tocadas por ninguém menos que Asgeir Mickelson (Ihsahn, Borknagar, Sarke, Testament ao vivo, Spiral Architect) e gravadas no famoso estúdio norueguês Toproom (Mayhem, Tristania, Enslaved, Arcturus etc). Estamos também mais experientes, mais maduros, e já com uma identidade própria, eu diria. Sabendo bem como desenvolver e mostrar a nossa música e abordagem artística. E acho esse amadurecimento é notado nitidamente nas músicas e nas letras do disco. Ele não é um disco de fácil absorção, é preciso ouvir várias vezes pra entendê-lo, isso eu garanto. Carrega as particularidades do Patria, mas está um passo a frente, tem um diferencial muito interessante. Pra completar tivemos além da co-produção, a mixagem e masterização pelas mãos experientes do Øystein, que finalizou todo o trabalho em Bergen, na Noruega, tirando um som incrivelmente orgânico, limpo e super pesado, que era o que estávamos procurando, sem perder aquela velha essência do Black Metal. E tradicionalmente tivemos a participação de Fabiano Penna nas partes orquestradas, sempre realizando um trabalho maravilhoso. Vale lembrar que o “Magna Adversia” foi nossa estreia no selo holandês Soulseller (Gorgoroth, Ancient etc) e foi o disco do Patria que mais rendeu resenhas positivas, com notas altíssimas da mídia especializada. Metal Temple (Grécia) 10/10, Necromance (Espanha) 10/10, Metal na Lata (Brasil) 10/10, Metal Hammer (Alemanha) 6/7, Scream Magazine (Noruega) 5/6, Hintf Webzine (Portugal) 9/10, Metal Only (Alemanha) 9/10, Inferno (Finlândia) 4.5/5, Ave Noctum (Reino Unido) 9/10, Soundscape Magazine 9.5/10, pra citar algumas. Definitivamente foi o álbum que consolidou o nome do Patria e continua rendendo excelentes frutos, pois é um disco recente, lançado no começo desse ano. Os shows de lançamento aqui no Brasil até o momento foram ao lado do Tsjuder e do Satyricon. E no Chile ao lado do Borknagar. E espero que venham muitos mais shows pela frente.

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