quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Dorsal Atlântica – “Canudos”


(2017 – Nacional)

Independente

Falar da importância da Dorsal Atlântica para a cena do Metal tupiniquim (e mundial!) é, usando mais um clichê, chover no molhado. Musicalmente, não há o que se falar. Os riffs, as canções, a energia e a honestidade sempre foram características marcantes nos trabalhos da banda e nos outros projetos de Carlos Lopes. No entanto, quem viveu os anos 80 - o final da ditadura e da repressão intelectual - nutre um carinho pelos trabalhos da Dorsal.

A cena underground “metálica” brasileira se firmou nos anos 80. Dezenas de bandas emergiam e davam a cara para bater em shows “roubadas”, com equipamentos ruins, gravações “primitivas tecnicamente”, mas históricas, levando-se em conta o período e as dificuldades! Tudo no “faça você mesmo”. Criou-se o sentido de comunidade (comunhão), no qual havia um relacionamento muito próximo (íntimo) entre bandas e público (fãs). Logicamente, havia a ciumeira entre bandas e estilos, mas isso não desmontava (ou desmoralizava) a cena.

No final do período da Ditadura Militar (sim ela existiu, apesar da negação de alguns “goiabas” - risos), diferente do que acontece atualmente (esquerda x direita, côncavo x convexo... sem embasamento intelectual e “presencial”), os Rockers, Punks e Headbangers eram uma resposta ao sistema falido (até hoje, apesar de alguns lampejos e conquistas sociais), às tradições familiares, religiosas e políticas.

Primeiramente, as pessoas eram “contaminadas” pelos ritmos, grooves, melodias e afins para, em um segundo momento, compreender o contexto social (ou não) das mensagens por trás das letras. É assim até os dias atuais. Mesmo que alguém não se importasse com as mensagens (políticas ou não), o próprio fato de, por exemplo, usar cabelos compridos, calças esmaga bagos (risos) e uma camisa “vermelha” do “Vol. 4” do Sabbath já era suficiente para levar “corretivos” diários da “poliça”. O indivíduo nem sabia direito o que eram os “ismos”, mas já levava uns “cola-brincos” por causa da roupa.

É compreensível (mas que tal estudar História?) para quem “herdou” a liberdade de riscar a pele, furar o rosto (orelhas, lábios, napas - risos) não dar valor às conquistas. O mundo mudou (e muito!) e hoje é natural qualquer visual e/ou música extrema ser aceito pela sociedade. Porém, houve os bandeirantes (do bem - risos), que exploraram e abriram os caminhos para que a liberdade individual e/ou coletiva, mesmo que muitas vezes de “fachada”, fosse respeitada ou engolida a seco.

Nada contra (muito pelo contrário!) as referências líricas nos castelos medievais, nas histórias de Tolkien (quem vos escreve é fã do autor!) e nas terras de fadas e duendes. Contudo, vivemos em um mundo (o Brasil faz parte dele), onde direitos humanos básicos são negados e desprezados e, em especial na terra do Temeridades, estamos perdendo direitos trabalhistas e previdenciários duramente conquistados, enquanto o machismo, a homofobia, o racismo e a xenofobia são considerados normais por muitos dos que se levantaram pela liberdade individual, coletiva e artística de anos atrás. É surreal ler (ver e ouvir) “roquistas e redbenguis” apoiarem os que querem lhes tirar o livre arbítrio, censurar quaisquer formas de arte e reverenciar torturadores (independente de ideologias). É bizarro (no mau sentido - risos)!

O lançamento de “Canudos” é um tapa na cara de um nicho musical, que perdeu quase que totalmente a habilidade de se impor, de mostrar novos caminhos (comportamentais e musicais) e de conviver com o diferente. É triste ver um homofóbico fã de Judas, um racista fã de Hendrix, um armamentista fã de Nuclear Assault ou um neonazista fã de bandas alemãs, que repudiam qualquer ligação a dialética racial imposta pelo Terceiro Reich.

No Brasil, há fãs de torturadores usando camisetas do RxDxPx, por exemplo! A vida não é só comprar disquinhos, tomar cerva de 70 dinheiros e ir a shows gringos de 500 “temeres”. Quem vos escreve, quando pode, também faz isso (risos), mas apoia e consome as cenas locais e uma coisa não anula a outra! E ainda sobre a tortura, Carlos (ainda Vândalo - risos) já a definia com propriedade: “o medo da dor é mais forte que a própria dor, tortura não passa de um ato sexual! ”. Assume logo o lado sadomasoquismo (cada um na sua) e pratique (ou idolatre) entre os iguais, não com inocentes ou os filhos deles...

Bom, vamos respirar fundo (risos) e falar sobre “Canudos”. Prestem atenção às letras, por favor! ( risos). Aula de História! Instrumentalmente, a banda continua afiada, explorando as vertentes (ora rápidas, ora mais pesadas) do universo do Heavy Metal. Um fato muito importante foi a aproximação às melodias e harmonias presentes na grande cultura nordestina. Calma, não é um disco de embolada ou forró, mas e se fosse? Vamos abrir a cabeça!

Para quem fugiu (risos) das aulas de História do Brasil, o trabalho é baseado na Insurreição de Canudos. Comandada por Antônio Conselheiro. Resumindo (quem quiser saber mais... que vá estudar! risos), as populações pobres e marginalizadas se revoltaram contra o “sistema” da época”, por não aceitarem as injustiças sociais, impostos, etc.. Isso (o fato em si) aconteceu no meio da segunda década do século XXI... ooops... final do século XIX...
Voltando ao disquinho (risos), destaque para a produção, que deixou o álbum equilibrado e pesado. Vale ressaltar, também, a produção gráfica.  O CD vem encartado em uma capa dupla de compacto, pôsteres (um mini da apresentação da banda no Monsters of Rock de 1998), encarte com letras e ilustrações do próprio Carlos, agora Lopes (risos). Indispensável para quem gosta ou quer entender a “História” da música pesada no Brasil e a própria História do... Brasil!


10

Adalberto Belgamo


Um comentário:

  1. Excelente resenha e aula aos redbenguis conservadores, uma aberraçao tal qual o pobre de direita. Rs

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