quarta-feira, 17 de outubro de 2018

In Lo(u)co: BOB MOULD - Sesc Pompeia (05 de outubro de 2013)




Por: Adalberto Belgamo

O Punk e o Hardcore sempre andaram juntos com Heavy Metal. Mesmo quando eram “adversários musicais” (risos), um influenciava o outro no meio underground, ou pela música, ou pelo sentido de comunidade. O que os estilos têm em comum? Atitude.

Lançaram-se como uma alternativa musical aos estilos predominantes na década de 70. Apesar de terem as mesmas origens (musical, cultural e econômica), foram se encontrar definitivamente no começo da década de 80. O Thrash Metal contribuiu muito para selar a paz (risos) entre os filhos do mesmo pai: o Rock & Roll. Atualmente, o Thrashcore e/ou Metalcore carregam a união das bandeiras, sem contar as milhares de bandas de estilos diversos, que se influenciam e apoiam umas as outras.

Para entendermos a importância do Bob Mould para as ”cenas”, começaremos pela banda de origem: o Hüsker Dü. O grupo surgiu em 1979 em ‎Minneapolis-Saint Paul, Minnesota. Contemporâneos ao Black Flag e Circle Jerks (entre outros grupos), debutou musicalmente mais “punk” e foi “se hardcorizando” (risos). DIY (Do It Yourself) e letras engajadas, que abordavam as mazelas da sociedade (sistema político e econômico, preconceitos, etc.), era o norte do movimento. Músicas simples (dependendo do ponto de vista), mas que despertaram a insatisfação pessoal e coletiva dos que não se enquadravam aos padrões sociais.



Na década de 80 assinaram com uma “major” e alcançaram mais projeção. No entanto, a banda se desfez. Bob Mould (guitarra/vocal) e Grant Hart (baterista/vocalista) seguiram na música, enquanto o baixista Greg Norton comprou um restaurante (risos). Enfim, o resto é história.

Musicalmente, definir a banda e a carreira solo de cada um é uma tarefa difícil. Punk? Hardcore? Melodia? Pop? “Tudu juntu i misturadu!” (risos). A genialidade em compor músicas simples - mas fenomenalmente cativantes - é a principal característica de todos os trabalhos! Alguns dizem que a banda seria um “cruzamento” de The Beatles e o Punk/ Hardcore. Eu concordo, reafirmo e assino embaixo! (risos) As letras eram muito inteligentes. Ora se impondo contra uma sociedade opressora, ora relatando conflitos existenciais, principalmente em relação à questão da sexualidade que, apesar de não ser explícita, afetava a vida dos integrantes.

Se alguém é, de alguma forma, homofóbico (ou tem homofobia “seletiva”), favor levar os preconceitos para as rodas cheias de “cuecas freadas” (risos). Não há a necessidade de aceitar o que lhe é contraditório, mas respeitar, sempre! Algumas vezes me arrependo de ter lutado (e apanhado - risos) para que as pessoas pudessem se manifestar livremente, em especial no meio do Rock/Metal, o qual sempre foi o alvo preferido da repressão de ideias, ideais, comportamentos, visual (“pilcing”, “largadores”, “tatus”, etc. - risos). Segue o jogo. #elenão #elenunca #NotHim

Voltando à música, Bob Mould e Grant Hart se apresentaram em São Paulo, em 2013. Infelizmente, não consegui ver o show do Hart. Tristeza. Ele faleceu no ano passado, mas deixou obras espetaculares para a eternidade!

Já o Bob Mould... Ao receber a notícia da vinda dele para o Brasil, já deu aquele nó na garganta! (risos). Um dos meus artistas preferidos. A espera (de mais de 30 anos - risos) finalmente chegaria ao fim.



Após do término do Hüsker Dü, ele capitaneou o Sugar, uma das bandas mais importantes de todo o movimento independente estadunidense, apesar de ele detestar o rótulo de “alternativo” (risos). Atualmente, ele se apresenta em projetos solos, inclusive eletrônicos (do bem - risos).

Chegou o dia do show e desci a pé para a rodoviária de Texascoara (Araraquara - SP), pois moro perto. Sozinho, levei um livro do Stephen King pra ler nas quase cinco horas de viagem. O ônibus estava praticamente vazio. Em São Carlos (cidade vizinha), quase lotou! Tenho certo azar (risos), pois sempre senta ao meu lado alguém que fala muito (mas muito mesmo, mais do que eu; quem me conhece pessoalmente sabe - risos), ou durma bambando em cima do meu ombro. Em uma ocasião, uma freira ocupou a cadeira do corredor. Muito simpática, ficamos conversando e ela de repente apagou e dormiu em cima do meu braço (risos).

No entanto, naquele 13 de outubro de 2013, as coisas mudaram. Tive a sorte de ter as duas poltronas para mim. Deu até para ficar com os pezinhos 44 (ou 45 - risos) pendurados no corredor.

Desembarquei no Terminal do Tietê e fui direto para o apartamento de um grande amigo, que sempre me dá “pousada”, quando estou em voos solos (risos). Valeu, Itcha! (Itaici Brunetti)

Demos um tempo, carreguei o “maldito” celular (no final vem o porquê - risos) e fomos para o Sesc Pompeia, um dos lugares mais bacanas para assistir a um show. Já havia presenciado o Teenage Fanclub lá. A região, na qual ele se encontra, por si só já deixou a noite ainda mais especial.

“Sold out”. A ansiedade da “velha guarda das college bands” (risos) estava a mil. Antes de entrar no show, resolvemos comer. Hamburgão e batatas fritas, que foram devidamente dilaceradas e depois expulsas do estômago (risos - nervosismo), minutos antes do show. No final deu tudo certo. As cervejas durante o set maravilhoso preencheram o vazio estomacal.

Vi o show ao lado do palco. Emocionante! Poucas vezes presenciei uma banda (na realidade, um trio) com tanta energia em cima de um tablado. Literalmente, suavam as camisas para proporcionar uma experiência única que, com certeza, marcou para o resto da vida os que tiveram sorte de estar no lugar e no momento certo! Catarse coletiva! A alegria e o assombramento, que estavam estampados nos rostos das pessoas, eram algo indescritível. Uma parte muito importante da história do Rock de “resistência” estava - no meu caso - a menos de dois metros. Hipnotizante!

Era a turnê do “Silver Age”, mas os fãs foram agraciados com diversos momentos da carreira. Da época do Hüsker Dü, simplesmente foram executadas, entre outras, Makes No Sense At All, Could You Be The One e I Apologize. Do Sugar, If I Can’t Change Your Mind, A Good Idea e Helpless e ainda Descent e Star Machine da carreira solo. A cada música, a sensação era de um frame novo ao filme, que se passava na minha cabeça. Lembranças da adolescência e da vida adulta, que se misturavam e se completavam.

Depois do show, conheci o outro lado do artista: o humano. Simpático e prestativo (apesar do cansaço), tirou fotos e conversou com todas as pessoas, que ainda estavam no Sesc. Inclusive comigo! (risos). Sou meio avesso à tietagem, mas era o Bob Mould. Levei alguns CDs para serem autografados (risos). Conversei muito também com  Jason Narducy (baixista) e Jon Wurster (baterista), que também fazem parte do Superchunk (outra banda importantíssima no cenário independente).

O Narducy não acreditava que eu tinha viajado cinco horas para ver o show! E muito menos na volta para a casa no mesmo dia! Estavam com um cooler com algumas cervejas. Porém, sem abridor. Abri as garrafas no canto da mesa (risos) e contei que umas das fábricas da “marca” era na minha cidade. Disse que havia um Sesc também e, quem sabe um dia, eles viriam para cá para fazer um show e conhecer o lar das “geladas”, que curiosamente, tinham adquirido na Holanda! E ai produtoras? Tive o imenso prazer de ver o Lee Ranaldo do Sonic Youth no Sesc local. Fica a dica (risos).

Despedimo-nos e fui para a “rodô”. Não deu nem tempo de comer uma coxinha (risos), porque o ônibus já estava de saída. Não via a hora de chegar à cidade para recarregar  o celular e ver as fotos. Na máquina fotográfica estavam apenas as do show. Fui dormir e deixei o “maledeto” carregando. Ao acordar, descobri que ele se formatou “sozinho”. Especialistas dizem que foi um vírus (bactéria, virose, praga de parteira... risos). Perdi todas as fotos que tinha com a banda! E a nuvem (o mar, o cofre, o oceano - risos)? Nada, também! Garrei tanto ódio de telefones móveis, que no ano passado “perdi” mais dois: um em um assalto; o outro em  furto (risos). Bem que o Mestre Stephen King descreveu em “Cell” a maldade destes seres cibernéticos! (risos)

Inté...

*Adalberto Belgamo é professor, atuando no museu (sem ser peça... ainda - risos), colaborador do Arte Metal, além de ser Parmerista, devorador de música boa, livros, filmes e seriados. Um verdadeiro anarquista fanfarrão.

2 comentários:

  1. Não é peça do museu, mas engana bem, com suas meias vermelhas listradas. Parmera é mesmo o seu "lindo", coitado, contenta-se com pouco. Cara do bem, inteligente e cia pra passar horas angariando cultura. Parabéns Adalba.

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  2. Excelente, pra variar!

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