quinta-feira, 18 de abril de 2019

Symptomen: Heavy Metal consciente





Por Vitor Franceschini

Totalmente consciente de sua proposta, a banda paulista Symptomen chega ao seu terceiro álbum mostrando maturidade e evolução tanto no aspecto musical, quanto em suas temáticas abordadas nas letras. Atualmente formada por Iago Pedroso (vocal/guitarra), o recém chegado Kim Malthus (guitarra), Manassés Procópio (baixo) e Ricardo Menezes (bateria), a banda divulga “Welcome To Brazil” (2018) mostrando que o Metal é plataforma para qualquer assunto e abordagem, com direito a trilha sonora envolvendo técnica, ‘feeling’ e peso.

“Welcome To Brazil” é um disco menos direto que seus anteriores, porém mais trabalhado e variado. Vocês concordam? O que podem dizer a respeito disso?
Iago: Olá, primeiramente obrigado pela oportunidade. Sim, nos esforçamos para colocar um tempero a mais nesse novo álbum, claro que isso deixa as músicas menos “diretas” e consequentemente menos “cantáveis”, mas era nossa intenção desde o início da concepção das músicas. Temos alguns momentos do álbum que ainda soam mais diretos como Born in Hell e Brazil I Am talvez, mas quisemos, de fato, dar um passo à frente.
Ricardo: Sim, com certeza. Isso tem muito a ver também com a questão da evolução pessoal de cada integrante da banda. “Welcome to Brazil” se comunica de uma forma mais elaborada que os álbuns anteriores
Manassés: Isso tudo se deu, também, pelo planejamento do álbum que foi feito com muita antecedência, isso nos deu liberdade para trabalhar com calma em cada riff e encaixá-los da melhor forma possível.

E quais os principais diferenciais e destaques do novo trabalho que vocês apontariam?
Iago: Bom, como você mesmo apontou, as músicas são mais trabalhadas, variam mais ritmicamente, harmonicamente. Outro ponto é a temática e a maneira que isso influenciou na música; em Mud of Death que retrata um desastre, existe esse ar melancólico, sombrio e de revolta ao longo do desenvolvimento da música; Welcome to Brazil é uma crítica irônica sobre gringos que vêm ao Brasil, ela fala da nossa cultura, samba e carnaval e inclusive tem muito de música brasileira nela: um berimbau dando um ritmo de capoeira numa parte instrumental com uma harmonia a lá música nordestina, uma rápida passagem de choro, elementos que não são nada comuns dentro do Heavy Metal. Essa passagem referencia Odeon de Ernesto Nazareth, que apesar do choro soar tão diferente do Metal, quando misturamos as duas coisas o resultado nos surpreendeu.
Ricardo: A qualidade do áudio também é um ponto de destaque que ficou muito superior aos álbuns anteriores, graças a todo profissionalismo da produção na Fatec. A crítica bem forte que veio com esse álbum também é um diferencial, pois embora os dois primeiros também trouxessem críticas, este terceiro vem de uma forma direta e pesada nas palavras e melodias. A sonoridade do álbum ficou mais “sombria” com relação aos álbuns anteriores e isso me agradou bastante.

Mesmo que em doses homeopáticas, o trabalho traz influências do Prog Metal, talvez pela versatilidade que possui. Concordam? A que atribuem isso?
Kim: Sim, em algumas partes soa mesmo (risos).
Iago: A progressividade vem do simples fato de querer sair do comum, isso a história da música nos conta. Não somos uma banda de Prog Metal e nem tínhamos a intenção de soar como uma, mas quisemos sair um pouco da zona de conforto, não queríamos soar tão “quadrados” quanto nos álbuns anteriores, apesar de entender que nosso público estava habituado a isso. Então tentamos trazer o que eu chamaria de “o melhor dos dois mundos” um instrumental mais trabalhado, as vezes se contraponto à rítmica da voz, passagens com mudanças no tempo, na subdivisão, mas ainda com um sentido artístico, eu diria até justificável. É possível perceber isso em Nation’s Disease e Toxic Life, por exemplo. Acho realmente triste que algumas bandas de Prog Metal, muitas vezes com excelentes músicos, deixam de se importar com a parte artística para soar apenas “técnico” e “difícil”.

A sessão rítmica é a que mais mostra versatilidade, com um baixo consistente e a bateria variando mais, soando menos direta. Isso foi algo com que vocês se preocuparam ou surgiu naturalmente?
Iago: Ao mesmo tempo que estabelecemos essa ideia de um álbum com uma sonoridade mais variada, isso ocorreu de forma natural, durante o processo de composição e arranjo, eu diria que foi uma preocupação natural (risos).
Ricardo: Isso mesmo. Não queríamos soar repetitivos nesse terceiro álbum e também queríamos uma forma nova da música se comunicar com o ouvinte, então trabalhamos bastante em estúdio para atingir um novo patamar de qualidade, tanto na execução das músicas como na forma que a música soaria neste novo álbum.
Kim: Sim, o tempo todo enquanto estávamos compondo a gente fazia experiências com ritmos e outras variações conforme o desenvolvimento de cada música.
Manassés: Acredito que a ideia era mostrar algo a mais. Evolução... soar menos repetitivo.



Nas guitarras não é muito diferente e o trabalho conta com a estreia de Kim Malthus. Como chegaram até ele, como foi trabalhar com Kim e qual o grau de colaboração dele em “Welcome To Brazil”?
Iago: Nós conhecíamos o Kim há algum tempo, ele não é da mesma cidade que o restante da banda, mas estava sempre por aqui, tocando com um pessoal daqui. Eu e Ricardo chegamos a fazer um som com ele numa tentativa de um tributo ao Iron Maiden, uns três anos antes de ele vir a fazer parte da banda, mas por falta de tempo de todo mundo acabou não dando certo. Mas de fato Kim é o integrante mais certo que já tivemos na banda.
Ricardo: Sim! Tanto que em pouco tempo, ele já nos trouxe ideias para novas músicas e sempre opinou fortemente nas que já estavam prontas. Kim veio, definitivamente, para agregar à banda!
Iago: Em quase todas as músicas, sou eu quem traz as primeiras ideias. Quando Kim entrou, as músicas Mud of Death, Brazil I Am, Born in Hell, Sinners e Toxic Life já estavam prontas. Mas como é possível ver nos créditos do álbum, Kim ajudou a compor todas as outras músicas do álbum, desde que entrou na banda. Eu destacaria The End of Our Days, Hail to the King, esta última que inclusive ele deu toda a ideia inicial da música.

Partindo para as temáticas do trabalho, “Welcome To Brazil” é um disco que foge do comum dentro do Heavy Metal Tradicional, que costuma muito abordar coisas fantasiosas. Qual as mensagens tentam passar com o trabalho?
Iago: Na verdade, sempre tentamos fugir desses temas fantasiosos, não o estilo da banda, nem da personalidade de cada um de nós. A ideia é apontar problemas estruturais do nosso país. Acredito que algumas pessoas podem achar que o álbum tem alguma posição política com relação ao cenário atual, é claro que em alguma dose sim, mas é muito mais que isso, o álbum começou a ser idealizado no final de 2015, muita coisa aconteceu na política de lá pra cá, poucas delas estão de fato na temática do álbum. Portanto o álbum traz problemáticas que vêm de muito tempo. Por exemplo, quando eu digo em Hail to the King que as pessoas esperam por um único homem como um “salvador” da pátria, isso pode dar a entender que estou falando do atual presidente, não que não seja também, mas a questão é: quando não foi assim? O brasileiro, no geral, sempre pensou assim de qualquer presidente. A crítica é mais profunda do que parece.

Em Mud of Death, aliás, vocês abordam o desastre de Mariana/MG. No momento em que divulgam o novo trabalho que inclui essa música, com esse tema, outro desastre de grande proporção envolvendo os mesmos responsáveis aconteceu em Brumadinho/MG. O que pensam a respeito disso? Aliás, parece que o assunto já saiu de pauta por parte de governantes, responsáveis e até da população...
Kim: É uma situação caótica na qual muitos moradores de lá estão passando até hoje e não poderíamos deixar passar em branco nesse disco.
Iago: Esse esquecimento por parte dos brasileiros, todos sabem o que é comum... Quando compus Mud of Death, eu sabia que levaria um tempo até a música ser lançada, e a ideia era justamente passar a mensagem de que “nós não esquecemos”, infelizmente isso volta a acontecer quase como um presságio, um mês após o lançamento do álbum. Isso apenas confirma uma das temáticas do álbum de que “eles só se importam com eles mesmos”.
Ricardo: Acredito também que além da própria intenção do governo de tirar o assunto de pauta, é tanta coisa ruim acontecendo dia após dia, que não dá nem tempo de sofrer psicologicamente muito por uma desgraça, pois uma nova aparece semanas depois.

Mud of Death e Brazil I Am foram escolhidas para se tornarem lyric vídeo. Por que a escolha dessas composições?
Iago: Mud of Death a gente sabia que seria um single desde sempre. Para a escolha de Brazil I Am, nós fizemos uma audição do álbum inteiro e tentamos chegar num acordo, a justificativa creio que seja o fato da temática da música apresentar bem a ideia do álbum além de ser uma das músicas mais diretas, já que Mud of Death não é tão direta assim, musicalmente. Não achamos que são, necessariamente, as melhores músicas do álbum, mas estão entre elas. Outro fator é que com outras músicas, pretendemos em um futuro próximo lançar videoclipes, mas não devo falar muitos detalhes sobre isso por enquanto.

A capa de “Welcome to Brazil” é bem detalhada e produzida. Como foi o trabalho por trás dela e fale desses detalhes?
Iago: A capa é uma releitura de uma foto tirada de dentro do planalto durante as manifestações de 2013, onde enquanto os políticos faziam um coquetel luxuoso, pessoas protestavam do lado de fora e é possível ver muita fumaça e ação policial. É claro que a capa traz uma versão exagerada, mas isso é uma tendência em qualquer arte, especialmente em bandas de Metal. A arte foi desenvolvida digitalmente pelo designer João Duarte e não há muito o que falar além disso, ficou excelente e melhor do que a gente esperava.
Manassés: Ela não só foi inspirada num momento mas mostra uma realidade que acontece no Brasil: enquanto em Brasília os políticos tomam champanhe em um coquetel caríssimo, o povo lá fora, implorando por melhorias fundamentais, não é atendido.
Kim: A capa é simples e direta: O Brasil num caos total e os políticos assistindo de camarote.

E como está a aceitação do público em relação ao álbum no mundo todo?
Iago: É cedo para dizer, por enquanto só ouvimos elogios. Quase todos que ouviram e nos deram um feedback, apontaram, assim como você, o fato de ser um álbum menos direto. Fizemos recentemente um show de lançamento para a versão física do álbum e foi um sucesso. O público adorou o show e fizeram vários comentários elogiosos sobre as novas composições. Dito isso, acredito que atingimos nosso objetivo inicial e o público está reagindo positivamente.

E quais os planos da banda, além de divulgar o novo trabalho?
Iago: Estamos no momento de atrair pessoas para ouvir o álbum. Isso é o mais importante no momento, e então fazer shows. O país está ruim para música popular que não está no ‘mainstream’, como o Metal. Na verdade, nunca esteve bom, mas agora parece estar pior. Estamos em busca de shows, nós realmente gostamos de tocar ao vivo! Agora estamos com o CD físico em mãos, vamos distribuir para algumas lojas e pretendemos lançar dois videoclipes nos próximos meses, como eu havia dito anteriormente, mas ainda é cedo para dar mais detalhes.
Kim: Daqui pra frente é divulgar cada vez mais e buscar shows pelo mundo afora. E já ir deixando na manga as ideias conforme forem surgindo para um próximo disco.

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