terça-feira, 17 de março de 2020

In Lo(u)co: Biografias, filmografias e documentários




Por Adalberto Belgamo

É muito interessante e nostálgico relembrar, comparar e associar momentos vividos a cenas (paginadas ou filmadas), as quais nos oferecem sensações de que foram escritas sob a nossa “supervisão” (risos).

Uma obsessão para muitos é a obra biográfica. Sendo um leitor compulsivo (pessoal e profissional), não consigo deixar de ler pelo menos umas setenta páginas (ou mais) por dia e, muitas vezes, duas leituras simultâneas (ficção e biografia). Dica, principalmente para os que não saem do grupo de zap da Tia Lurdes e/ou do Youtube assistindo a vídeos de lunáticos sobre teorias conspiratórias (cigarro faz bem, vacina faz mal, a terra é plana, “comunismo” de mercado): o livro (físico ou não) tem a capacidade de ajudar a construir um mundo melhor, mesmo os que retratam figuras e períodos detestáveis e tristes da nossa História. Ademais, ler não machuca e não há desculpa para falta de tempo, pois apenas trinta minutos diários já são suficientes e um bom começo.

Nos últimos anos, várias biografias foram despejadas pelo mercado editorial. As relativas à música – em alguns casos sobre nossos “ídolos” – expõem não apenas a vida, mas também fatos e períodos históricos, econômicos e socioculturais, que não vivemos. Quem vos escreve, por exemplo, apesar de trabalhar em um museu, ser praticante da calvície e ser o único dinossauro vivo no planeta, não ajudou os artistas da Renascença a pintar a Capela Cistina (risos).



Há vários exemplos interessantes

Quem teve a oportunidade de ler as biografias do Black Sabbath e/ou membros da banda deve ter percebido que o Metal nasceu no seio da classe trabalhadora e se opunha à atmosfera paz e amor. É impossível o ambiente social e econômico não influenciar qualquer tipo de arte, pois os elementos inspiradores fazem parte do cotidiano coletivo ou individual. No entanto, apesar de uma obra não estar explicitamente ou necessariamente ligada a, por exemplo, ideologias políticas/partidárias (esquerda, direita, côncavo, convexo – risos), há um limite. Difícil compreender Punk anarquista defendendo o mercado (anarcocapitalismo – Gesuis!) ou um “redbengui” defendendo ações totalitárias de diferentes pensamentos, inclusive fundamentalistas religiosos. Black Metal Cristão! É para cair o órgão excretor das ceroulas! (risos).

Voltando à música em si, li a biografia do Elton John, um contemporâneo e amigo do Ozzy. São da mesma geração e passaram por dificuldades idênticas na indústria musical. Ao compararmos as duas histórias de vida, encontramos muitos pontos em comum (persistência, “balbúrdia” - como diz o lunático do Ministério da Educação - decepções e desafios), mas podemos notar também que o ambiente socioeconômico, no qual cresceram,  os colocava em direções opostas, além das questões criativa e financeira. Enquanto um queria sair das precárias condições de vida, o outro se preocupava com o glamour.

Outro exemplo interessante, é a lavagem de roupa suja dos membros do Kiss. As biografias autorizadas do Paul Stanley e do Peter Criss tem em comum apenas os fatos ligados à criação da banda. Os dois nasceram em situações econômicas e culturais distintas, as quais influenciavam o relacionamento dos membros originais. Duas pessoas defendendo fatos por meio de óticas diferentes. Divertidíssimo!

Ramones

As biografias dos integrantes estão entre as mais surreais e bizarras! A convivência entre o Johnny – um capitalista conservador (não confundir com fundamentalista religioso e fiscal de bunda alheia, que na realidade é um frustrado em todos os sentidos da existência humana, recém-saído dos esgotos) e Joey (um progressista) mostra que, apesar das diferenças, a banda se concentrava no profissional. Bom para os fãs! Bom para o “bolso” da banda e empresário! (risos). A democracia não é perfeita, mas é o melhor que temos até o momento. Ter pontos de vista diferentes em relação ao papel do estado e do mercado é saudável, pois o sistema é feito dos contraditórios. O que não é saudável é jogar frustrações (inclusive sexuais) e culpas diversas nos outros. 



E quando as biografias vão para as telonas?

Algumas conseguem resumir o livro em duas horas, concentrando-se em aspectos pessoais interessantes do “homenageado”. Outras apelam demais para a “balbúrdia” (risos), necessária para contar a história, mas com certos exageros. No final do dia, entre a realidade e a ficção sobram, no mínimo, momentos de diversão. Quem tiver a oportunidade, há boas adaptações, entre elas “Walk The Line” (Johnny Cash), “The Runaways” (Garotas do Rock), “Rocketman” (Elton John), “Lords of Chaos”, “What We Do Is A Secret” (The Germs), “Hysteria” (Def Lepard) e, logicamente (apesar de alguns erros e exageros) “Bohemian Rhapsody”.

Documentários
Não vivo sem! Independente do assunto. Como escolher? Prefira os que além da opinião pessoal (impossível não imprimir pessoalidade) sejam baseados em fatos e argumentos sólidos e reais. Nem cheguem perto das teorias da conspiração. Há vários no YouTube. Seja criterioso para não passar vergonha alheia e dizer que o nazismo é de esquerda, mesmo com renomados historiadores e o próprio povo alemão dizendo o contrário. Se chover arreios, faltarão carroças! (risos).

Há centenas de documentários sobre bandas, cenas, músicos, produtores e álbuns, nacionais e “gringos”. A sensação de pertencimento a algum episódio é enorme, principalmente se alguém viveu os momentos retratados. Eu mesmo já embelezei os pixels de alguns da cena “rocker” da minha cidade. O último, ao qual assisti, foi o “Aridez”, sobre a história do Metal (Rock em geral) no Piauí.

As histórias são as mesmas que aconteciam em várias regiões e cidades do Brasil na década de 80. Quem viveu a época viu o nascimento e a chegada do Thrash Metal no país. Ouvir os relatos dos fãs – de como se comportava a cena – é praticamente ouvir a própria história. Um bando de cabeludos renegados pela sociedade, que se reuniam em pontos centrais das cidades para conversar e trocar experiências sobre música, pesada em particular. Sempre havia (há) uma escadaria, um prédio público (na minha cidade o museu... deve ser praga de parteira! risos), um bar ou uma banca de jornal para conversar e tomar uma aguardente. Para quem vos escreve assistir ao “Aridez” suscitou lembranças felizes de “demos”, fanzines e camaradagem. Bons e “inocentes” tempos.

É isso aí. Há muito que se fazer na vida além de redes sociais e aplicativos de troca de mensagens. O convívio social não te agrada, só o estritamente necessário? Gosta de ficar em casa? Aproveite para ler, ver e conhecer histórias incríveis, das quais provavelmente você é ou foi parte atuante.

Inté!

*Adalberto Belgamo é professor, atuando no museu (sem ser peça... ainda - risos), colaborador do Arte Metal, além de ser Parmerista, devorador de música boa, livros, filmes e seriados. Um verdadeiro anarquista fanfarrão.

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