(2026 – Nacional)
Bruxa
Verde Produções
Se
o leitor (futuro ouvinte) já rememorou o filme “Finis Hominis - O Fim do Homem”,
de 1971, do consagrado diretor brasileiro José Mojica Marins, também conhecido
como Zé do Caixão, há sim uma grande possibilidade de a banda paulistana ter se
inspirado nele para adotar tal alcunha.
Até
aí, tudo bem. O diferencial aqui está na junção do som com a tal temática aqui
encontrada, já que o Finis Hominis, trio de São Paulo que surgiu em 2020,
aposta no sludge metal com letras que corroboram com a realidade do trabalhador
brasileiro em sua pior parte (se é que existe a boa), o que já é um ‘terror’.
Como
diz o próprio release, a temática em comum encontrada no debut da banda, “De
Natura Horroris”, é uma reflexão sobre como as atuais relações de trabalho
moldam e esmagam o trabalhador não só dos grandes centros urbanos, marcando
negativamente pessoas pelo mundo todo.
O
cansaço, o caos da rotina e a incessante busca pela quase impossível
estabilidade financeira, são retratados da forma mais ‘na cara’ possível e o
mais incrível é que tudo isso casa perfeitamente com o a sonoridade
apresentada. Talvez porque, na maioria dos casos, o trabalhador desse país se
encontra na lama (sludge).
Durante
as sete composições, onde destila-se tais conceitos líricos, guitarras ultra
distorcidas, como se o próprio lodo permeasse as cordas, com chiados propícios,
andamentos lentos e uma pulsação quase parando do baixo pavimentando as linhas
para vocais vomitados, ora guturais ora rasgados.
Assim
como a metáfora aparece vez ou outra nas letras, elementos do death e doom
metal estão presentes, ajudando a complementar ainda mais o ar sorumbático e
flertar de forma mais sucinta com leves toques de stoner e crust, que
equilibram a dinâmica.
Não
bastasse a qualidade sonora do disco, que fica cada vez mais viável mesmo
diante da podridão bem direcionada e da reflexão que nos deprime, “De Natura
Horroris” guarda tesouros de arte, onde ainda traz algumas partes sampleadas de
filmes cult nacionais, como “Cronicamente Inviável” (2000), dirigido por Sérgio
Bianchi, e “Arábia” (2017), dirigido por João Dumans e Affonso Uchoa, entre
outras passagens de películas brasileiras.
A
arte de capa é composta por um quadro feito por Mayara Adonais (La Stigmata) baseado
na pintura “O Sacrifício de Isaac” de Caravaggio, onde as flores representam o
lucro do patrão gerado violência contra seus funcionários. A tarja lateral foi
idealizada por Antônio Leal (Damaged Artwork) com elementos da pintura.
No
final das contas concluímos que “De Natura Horroris” pode ser classificado como
uma beleza odiosa, onde a arte se manifesta da forma mais pesada e suja
possível, dando sobrevida à sobrevivência, ao menos musicalmente. Um primor!
Por
Vitor Franceschini
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