Por Vitor
Franceschini
Abordar a realidade humana sem fazer drama ou com
pieguismos, tendo como trilha sonora um som podre e sombrio, é um dos grandes
motes da Finis Hominis, banda paulistana de sludge metal que não fecha seu
leque e ainda espirra para os lados do doom e death metal. Com seu disco de
estreia, “De Natura Horroris”, lançado este ano, o trio formado por Vitu
(guitarra/vocal), Mega (baixo/vocal) e João Paulo (bateria) deixa sua marca em
um cenário bem específico com uma arte que pode ser grotesca, mas tem sua
beleza. O trio fala ao ARTE METAL sobre isso e ‘otras cositas’.
Pra
começar leve, o nome da banda realmente é inspirado no filme do saudoso Zé do
Caixão ou realmente está de acordo com a temática que a banda costuma abordar?
Ou as duas coisas?
É
pela sonoridade do nome e também por ser um filme do Zé do Caixão. Nesse
sentido, acaba sendo uma homenagem bem direta, mas que não tem necessariamente
relação com o filme em si. O nome acabou funcionando também porque conversa
muito bem com aquilo que a banda pretende abordar. Nós pregamos, de certa
maneira, o fim da humanidade como ela é. Então, apesar de o nome ter vindo
primeiro, ele acabou combinando bastante com o que a banda se tornou e,
infelizmente, com o mundo que nós passamos a viver, especialmente depois da
pandemia.
Falando
em temática, num contexto geral vocês trazem o ‘pessimismo’ como principal mote
lírico. Fonte não falta para escrever as letras nos tempos atuais não?
Fonte
não falta mesmo. Mas não gostamos tanto de pensar na Finis Hominis simplesmente
como uma banda pessimista. O som é pesado e tem esse caráter mais para baixo,
mas a nossa ideia está muito mais próxima de uma reclamação ativa.
Para
nós, o pessimismo é melhor do que o niilismo. No niilismo você não acredita em
nada. No pessimismo você não tem muita esperança, mas ainda existe uma reação.
E é justamente isso que nos interessa. Nós não queremos simplesmente dizer que
está tudo fodido e acabou. Existe uma postura de denúncia, de protesto.
Talvez
nós tenhamos pegado essa estética mais fatalista do Sludge Metal e transformado
em uma reclamação mais ativa e politicamente consciente. Estamos morrendo,
estão batendo na gente, estamos comendo lixo, temos que trabalhar, estamos
perdendo direitos, sendo assassinados e violentados. As letras da Finis Hominis
falam, pelo menos até aqui, sobre aquilo que violenta as pessoas e também sobre
as formas pelas quais as pessoas acabam se auto violentando.
Então,
sim, matéria-prima não falta. É uma música de denúncia. Nós não falamos de
unicórnio, mago ou qualquer coisa completamente desconectada daquilo que está acontecendo
ao nosso redor.
3Ainda
sobre isso, me chamou muito atenção a banda abordar esse pessimismo jogando na
cara o horror que é a rotina de um CLT no país, em seu álbum de estreia “De
Natura Horroris”. O pessimismo e essa rotina do CLT é parte da vida de vocês?
Não
é só a rotina do CLT. É a rotina de todo trabalhador. Inclusive, colocar a
questão apenas como um problema da CLT pode acabar sendo um ataque a uma coisa
que, apesar de todas as suas limitações, ainda é positiva para o trabalhador.
Hoje existem formatos de trabalho muito mais precarizados. Em “O Homem que
Virou Suco”, por exemplo, a primeira estrofe fala sobre o trabalho mais CLT e a
segunda já aborda o trabalho pejotizado. Então nós estamos falando, na verdade,
sobre o trabalho de maneira geral.
A
ideia nunca foi restringir a discussão ao trabalhador CLT. Afinal, quem é CLT
hoje? Cada vez mais isso representa uma parcela menor da população
trabalhadora. Existe toda uma massa de trabalhadores informais, pejotizados e
submetidos a condições ainda mais precárias. A discussão sobre a escala 6x1 é
um exemplo disso. Mesmo que uma eventual mudança beneficie diretamente
determinados trabalhadores, existe uma enorme quantidade de pessoas que
continuaria trabalhando até sete dias por semana. Então é sobre o horror do
trabalho em si, sobre a exploração e sobre a precarização.
Continuando
ainda sobre a temática, vocês a abordam de uma forma poética e nem sempre
direta, mas realista. Como trabalham nessas letras?
Nós
escolhemos o tema principal e fomos construindo as letras em cima dele. A ideia
era fazer o disco de maneira realmente temática, dividindo esses assuntos entre
diferentes situações que aparecem na vida de um trabalhador.
A
escolha de não falar sobre essas coisas de maneira tão direta também é
proposital. Nós acreditamos muito na força do lúdico. Quando a ideia entra na
cabeça de uma maneira mais indireta, ela ganha espaço na mente de uma maneira
diferente. Você coloca o disco para tocar e, inicialmente, talvez nem entenda
exatamente o que está acontecendo. Só começa a ter algumas pistas a partir da
segunda música. Se você não prestar atenção, pode parecer apenas um monte de
coisas aleatórias com algumas referências ao trabalho. E isso também conversa
com a nossa ideia de uma postura ativa. Não queremos que apenas a banda seja
ativa, queremos que o ouvinte também seja. Que ele preste atenção no que está
acontecendo, nas letras, nas artes, no encarte e tente juntar essas coisas para
entender o Horror Natural.
Além
disso, as letras nunca foram tratadas como uma obrigação de simplesmente “criar
uma música”. Elas são um espaço em que cada integrante pode colocar um pouco de
si. Desde o começo a gente sempre dividiu muito esse processo. Não existe essa
coisa de “as letras são do Mega, o riff é com o Vitu e o João só fica na
bateria”. Todo mundo interfere em tudo. A gente troca ideias, escreve, faz
riffs, dá pitaco na bateria. É uma construção realmente coletiva, e acho que
isso torna a banda um organismo muito mais potente.
E
há inserções de trechos de filmes brasileiros nas faixas. Todos filmes ‘cults’,
mas com muito contexto dentro do tema. Queria que falassem um pouco sobre isso.
Quando
começamos a tocar Sludge, sempre tivemos vontade de trabalhar com samples. É
algo bastante comum no estilo, mas também é uma maneira de inserir outras
formas de arte dentro da música.
Quando
pensamos em fazer “De Natura Horroris” como um disco conceitual, começamos a
procurar filmes que conversassem com a temática. O primeiro que veio à cabeça
foi “Cronicamente Inviável” (2000),
do Sérgio Bianchi. Foi um filme que o João viu no começo da faculdade e que
mexeu bastante com ele, principalmente pela maneira como aborda o trabalho e
faz críticas ao Brasil de sua época.
“Arábia” (2017, N.E.: também de Sérgio Bianchi) também conversou bastante com a temática. É um
filme muito sensível sobre relações de trabalho e sobre a vida do trabalhador. “O Homem que Virou Suco” (1981, N.E.: direção
de João Batista Andrade) apareceu de outra maneira. A gente chegou a
pensar em utilizar um sample, mas decidiu não colocar tantos porque poderia
soar excessivo. Então ele acabou entrando através da própria composição e do
título, que fazem uma referência bastante direta à exploração do trabalho.
E
tem também “Metrópolis” (1927),
do Fritz Lang. A ideia veio principalmente da figura do Moloch. Existe aquela
cena em que as máquinas da fábrica assumem a forma de Moloch, um antigo demônio
associado aos sacrifícios. A partir daí a gente começou a pensar no Moloch como
uma representação do transporte público, do ônibus, dessa máquina que também
consome as pessoas. Inclusive, a ideia era trabalhar bastante com sons do
cotidiano. Isso também apareceu no nosso ensaio de fotos, que foi feito no metrô.
A ideia era construir uma identidade em que os sons e imagens da vida cotidiana
também fizessem parte da obra.
A
sonoridade é focada no sludge metal, que é um estilo pouco abordado no Brasil.
Essa premissa é natural ou vocês são fãs do estilo e resolveram investir nele
quando criaram a banda?
Somos
fãs do estilo. Então não foi exatamente uma escolha calculada. Ao mesmo tempo,
não dá para dizer que fazer sludge no Brasil seja uma premissa natural. O
sludge tem uma origem e uma tradição muito específicas, e a maior parte das
bandas canta em inglês. Fazer metal no Brasil, de qualquer maneira, já é uma
adaptação.
Desde
que começamos a frequentar a cena, percebemos que havia pouquíssimas bandas
brasileiras trabalhando diretamente nessa linguagem. Dá para citar da época a
Mito da Caverna e a Bonnot, que tinham uma pegada muito próxima do Corrupted, e
o Baphomaster e a Liträo, do Rio de Janeiro. Um pouco mais próximo do death
doom, também tivemos bandas como o Jupiterian.
A
gente quis ousar e fazer um som dentro desse estilo, e hoje ficamos muito
felizes em ver mais bandas surgindo e mais gente interessada não apenas em
consumir esse tipo de música, mas em reproduzi-la e fazer do seu próprio jeito.
Temos parceiros em vários estados e é muito foda perceber que existe um cenário
crescendo.
E
talvez exista também um terreno bastante fértil para isso por aqui. O Brasil é
meio lama em muitos aspectos. Tem violência pra caralho, poluição, cidades
cinzentas e uma série de contradições. Apesar do sol, às vezes parece que
estamos em um lugar feito para falar de coisas ruins. Então talvez exista mesmo
uma afinidade entre o ambiente e esse tipo de sonoridade.
E
como foi o processo até “De Natura Horroris”? O disco demorou a ser lançado por
optarem por formatos menores pra atender a forma de consumo atual de música ou
por algum outro motivo?
Não
houve uma estratégia de lançamento pensando no que seria mais viável para o
mercado ou para o consumo atual. A gente simplesmente se adaptou à nossa
realidade. Isso envolve dinheiro, tempo e toda a dificuldade de conceber um
trabalho completo.
O
EP de quatro músicas e o single que vieram antes, para nós, fazem parte do
mesmo universo. É tudo meio que do mesmo tacho. Começamos com o EP porque
estávamos com muita vontade de colocar um trabalho na rua, apesar da nossa
tendência de tocar devagar. Depois veio o single, dentro daquilo que era
possível fazer naquele momento, inclusive financeiramente. Agora foi possível
fazer um full-length. E ele demorou cerca de três anos para ser composto e
montado, até chegar naquele sprint final para colocar tudo de pé.
Também
não acreditamos muito nessa ideia de que uma banda precisa ficar lançando
singles à exaustão para tentar atingir alguém. Quem tiver que ser atingido vai
ser atingido. Preferimos fazer o que conseguimos fazer, com aquilo que
temos, e quando quisermos.
E
o que vocês destacariam no disco, tanto como principais pontos, quanto como o
que ele traz de diferencial nessa fase atual da banda?
Acho
que uma das principais coisas é que a gente conseguiu aprofundar a mistura do
sludge com o death metal e o death doom. Além disso, tivemos uma participação
muito mais ativa na produção do trabalho. Também já sabíamos melhor o que
queríamos e conseguimos um material mais a nossa cara.
Os
samples também ganharam uma refinada, assim como toda a identidade visual. O
uso das flores, por exemplo, cria um contraponto interessante com toda a
temática feia e pesada do disco.
Outro
diferencial é a própria formação. São dois vocais e apenas três
instrumentistas, mas a conseguimos fazer um paredão de som com apenas três
pessoas.
Também
é importante falar da equipe que se juntou para fazer esse trabalho. O Renato,
o Cauê, o Luan, a Mayara, o Antônio, a Hagane e todas as pessoas e selos
envolvidos acabaram contribuindo para que o disco tivesse uma identidade muito
própria. Foi um casamento muito legal entre diferentes pessoas e linguagens.
Tem
até coisas bastante orgânicas nesse processo. O Renato trouxe algumas ideias de
noise e existe, por exemplo, no final da música “Seco” e no começo da “O Homem
que Virou Suco” um prato rachado que foi tocado com uma chave de fenda e
captado usando um microfone de contato. Mais orgânico impossível.
Ainda
há elementos de death metal, doom metal, crust e até punk. Estes estilos são
influências naturais de vocês?
Gostamos
da ideia de antropofagia. A gente come cultura humana. Então seria difícil
tocar apenas sludge metal, sem incorporar outras coisas.
Apesar
de nos apresentarmos primeiro como uma banda de sludge, isso não coloca amarras
na possibilidade de experimentar outras sonoridades. Incorporamos aquilo que
escutamos e que faz sentido dentro dos limites estéticos da Finis.
Death
metal, death doom, crust, grind, powerviolence, emoviolence… está tudo por lá.
São coisas que a gente ouve e que acabam aparecendo naturalmente no processo. É
uma antropofagia total.
A
capa de “De Natura Horroris” é um espetáculo à parte e traduz um pouco do que é
o som de vocês, na minha singela opinião (que de nada vale). Afinal de contas,
na resenha que fiz pro blog, defini o som de vocês com algo belo e odioso. A
arte da capa é belíssima e representa algo odioso, que é a exploração do
trabalho. Queria que falassem sobre ela, como chegaram e desenvolveram com
Mayara Adonais e Antonio Leal?
A
ideia inicial veio de uma montagem baseada no “Sacrifício de Isaac”, do Caravaggio. A partir dela, foram
acrescentadas algumas flores ao redor. A gente levou essa ideia para a Mayara,
que desenvolveu tudo dentro do estilo dela, utilizando giz pastel. O resultado
ficou bastante agressivo e, ao mesmo tempo, muito bonito. Depois chamamos o
Antônio Leal para fazer a tarja e desenvolver o restante do projeto gráfico. O
material também conta com uma ilustração de Moloch produzida pelo Luan
Desnecessaure, fotografias da Hagane e uma arte do Luiz Alcamin que ilustrou a
capa de um single do álbum.
Além
disso, já acompanhávamos o trabalho da Mayara há algum tempo e sempre tivemos
vontade de trabalhar com pessoas diferentes. Essa é uma das coisas legais de
estar ativo como banda: você vai conhecendo artistas e tendo a oportunidade de
construir trabalhos em conjunto. O Alê Soares, por exemplo, trouxe uma
identidade muito legal para o “Sordidum
Est” e também para o novo logo da banda. O Joe trouxe uma identidade
muito forte para o single “Nem os
Mortos São Neutros”. A Mayara teve um papel muito importante na capa de “De Natura Horroris”, o Antônio em
todo o projeto gráfico, a Hagane nas fotos e o Luiz na arte do single etc. Cada
um colocou um ou mais tijolos nessa catacumba que é esse play.
E
existe um significado bastante direto na composição imagética do álbum. As
flores representam o lucro do patrão. O trabalhador está sendo morto para
adubar o jardim dos ricos. Os passarinhos mortos também representam os
trabalhadores. É uma representação de como a morte do trabalhador pode fazer
com que o mundo do patrão fique mais bonito. E existe também a ideia de um
mundo que simplesmente não para. Quando um trabalhador morre, as flores
continuam ali. Ele é consumido e descartado, vira parte daquele sistema. Se uma
pessoa trabalha a vida inteira e morre, provavelmente ela não será lembrada.
Mas o prédio que ela construiu continuará lá. É essa permanência da obra
enquanto o trabalhador é apagado.
Muito
obrigado pela entrevista e sucesso pra banda! Espaço para vocês acrescentarem o
que quiserem!
Gostaríamos
de agradecer a todo mundo que trabalhou conosco nesse disco e que ajudou a
construir essa fase da Finis Hominis. É muita gente envolvida e seria injusto
não reconhecer quem colocou a mão na massa junto com a gente.
Também
fica o nosso agradecimento ao Black Sabbath e ao Black Flag, que são
referências fundamentais para nós.
Agradecemos
à Bruxa Verde pelo apoio desde sempre, ao Arte Metal pelo espaço, e a todo
mundo que ouviu, divulgou, comprou, tocou ou simplesmente deu atenção ao nosso trampo.
Também
queremos mandar um salve para as bandas parceiras que estão construindo esse
cenário junto com a gente, como Litrão, Bonnot, Morto, Death Owl, Mytima,
Suicide Soundtrack e Sem Cultura.
Estamos
muito contentes com o resultado do trabalho. E aguardem novidades.
https://allmylinks.com/finishominissludge



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