It’s All Red usa metalcore para escancarar feminicídio em novo álbum; disco também traz Humberto Gessinger
Pioneira do metalcore brasileiro, banda gaúcha lança primeiro disco inédito em dez anos e transforma em música dores de um caso real de feminicídio vivido pela família do vocalista; álbum homônimo também traz colaboração de Humberto Gessinger
Após dez anos sem lançar
um álbum de inéditas, o It’s All Red, uma das bandas pioneiras do
metalcore no Brasil, retorna com um trabalho homônimo que coloca o peso do
gênero a serviço de investigar os diversos ângulos do pertencimento: a
necessidade de encontrar um lugar no mundo, de pertencer-se, construir
vínculos, reconhecer-se em pessoas, espaços, ideias e experiências,
ao mesmo tempo em que se lida com as tensões entre identidade individual e
coletiva.
➤ Ouça It’s
All Red:
https://open.spotify.com/intl-pt/album/7fBhENzbMaf32Mz8hSqO3n?si=nm2rKioqQrS96yAjV4qAcg
Entre os destaques está “Femme”,
faixa inspirada em um caso real de feminicídio que atingiu a família do
vocalista Tom Zynski e teve repercussão na imprensa gaúcha no ano passado. ➤ Assista
"Femme": https://www.youtube.com/watch?v=ktrlcAdQ8mE&list=RDktrlcAdQ8mE&start_radio=1
O disco também apresenta
a inédita “Pertencimento, Pt. 1”, que integra uma composição dividida em
duas partes e conta com a participação de Humberto Gessinger. A segunda
parte, “Pertencimento, Pt. 2”, já havia sido apresentada ao público no início
deste ano como single. “Não devemos aceitar a dor do mundo com resignação; este
disco é a nossa recusa ao silêncio. É o nosso primeiro álbum em dez anos e
nasce da urgência de colocar tudo pra fora. As parcerias com Humberto Gessinger
amarram a ideia do disco sobre ‘pertencer’, agora com a inédita ‘Pertencimento,
Pt. 1’. Tenho um orgulho imenso do nosso quarteto e dos colaboradores que
criaram o trabalho mais rico da banda em timbres e texturas.”
— Tom Zynski, vocalista
do It’s All Red
“Femme”: quando o luto
vira denúncia
Entre as faixas mais
contundentes do álbum está “Femme”, composição que nasceu de uma experiência de
violência real. A música foi inspirada no feminicídio de uma prima segunda do
vocalista Tom Zynski, ocorrido em 2025, no Rio Grande do Sul.
O caso marcou
profundamente a família e, na música, a experiência é transformada em denúncia,
homenagem e elaboração artística do luto. Mas “Femme” também se conecta
diretamente ao conceito de pertencimento do qual trata o álbum.
Aqui, a ideia aparece
pelo seu avesso: o pertencimento entendido como posse, como a tentativa de
transformar uma mulher em propriedade de alguém, ou como a impossibilidade de
pertencer plenamente quando sua existência autônoma não é tolerada. A violência
extrema retratada na faixa expõe essa distorção, quando o desejo de possuir o
outro se sobrepõe ao reconhecimento de sua liberdade e individualidade.
“‘Femme’ é a letra mais
pesada do disco. Ela vem de uma dor visceral, inspirada no feminicídio que
impactou a minha e tantas outras famílias este ano, em um país e um estado em
alerta e sem ver o fim. Uma das respostas possíveis é a indignação transformada
em arte”, afirma Tom Zynski.
A composição também
ganhou um clipe dirigido por Bruno Carvalho, que partiu da narrativa
visual presente na própria letra para construir uma atmosfera claustrofóbica de
tensão e abuso.
“‘Femme’ é uma música que
já possui um texto muito visual e narrativo, com frases que sozinhas já te
transportam pra dentro de um universo claustrofóbico de tensão e abusos. Nosso
trabalho foi escolher a frase certa para, a partir dela, revelar esse universo.
Por mais que o verso seja citado apenas uma vez durante a música, a ideia de ‘reversal
of love in front of her son’ veio como uma base, um norte narrativo para
que equipe e elenco construíssem a estética”, explica Carvalho. “É uma música
forte, com muita personalidade e com mensagem potente. Para nós, diretores,
fica a gratidão pela liberdade que a banda nos deu para ajudar a construir essa
história”, completa.
Histórias de lugares distantes, histórias de pertencimento
O conceito de
pertencimento atravessa o álbum por diferentes caminhos. Em vez de tratar o
tema apenas a partir das experiências pessoais da banda, o It’s All Red amplia
essa busca para personagens, povos e territórios marcados por deslocamentos,
conflitos e transformações históricas. As letras percorrem paisagens, guerras e
reinos da Ásia e outros cenários distantes, criando histórias originais que
refletem sobre identidade, violência, perda e o desejo de encontrar um lugar ao
qual pertencer.
“Macau”,
a primeira música autoral da história da banda em português, é um exemplo dessa
abordagem. A faixa parte das Guerras do Ópio, ocorridas na China no século XIX,
para construir uma narrativa sobre um território atravessado por disputas de
poder, interesses estrangeiros e profundas transformações sociais. Dentro do
universo do álbum, o episódio histórico funciona como uma maneira de olhar para
as relações de pertencimento a partir do conflito: quem domina um território,
quem é deslocado por ele, quem chega de fora e quem tem o direito de chamar
determinado lugar de seu.
Essa perspectiva se
conecta diretamente à “Pertencimento”, composição dividida em duas partes que
aborda a experiência de imigrantes que chegaram ao Sul do Brasil em busca de um
lugar para construir suas vidas. Assim, histórias situadas em épocas e
territórios distintos passam a compartilhar uma mesma questão: o que significa
deixar um lugar, chegar a outro e tentar construir uma identidade a partir da
experiência de buscar — ou ter negado — um lugar de pertencimento.
A própria papoula, figura
escolhida para a capa do disco, reforça essa conexão. A flor está
historicamente relacionada ao ópio que esteve no centro dos conflitos abordados
em “Macau”, mas também carrega significados que ultrapassam esse contexto,
podendo representar beleza e amor, assim como sofrimento, morte, perda e
memória.
A ambivalência da papoula
acaba funcionando como uma síntese do álbum: beleza e violência, contemplação e
peso, experiências individuais e acontecimentos históricos coexistem em um
trabalho que procura diferentes formas de falar sobre pertencimento, inclusive
quando esse pertencimento é imposto, negado, disputado ou transformado em
posse.
Gessinger e o metal
A colaboração com Humberto Gessinger nas duas
parte da faixa "Pertencimento" aproxima universos que os rótulos
costumam separar. O músico cita Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden e
Motörhead entre suas principais referências ligadas à música mais pesada e
afirma que, aos 60 anos de idade, as classificações de gênero já não dão conta
da diversidade da música para ele.
Durante as gravações,
Gessinger e It´s All Red trocaram referências sobre diferentes gerações do
metal, incluindo conversas sobre Opeth e Ghost. Para Rafael Siqueira, ouvir a
voz do músico sobre uma base pesada foi emocionante. “Dá vontade de fazer um
disco inteiro”, conta.
Humberto Gessinger
comenta sobre a experiência de cantar em um disco de heavy metal: “Tento não
deixar que rótulos atrapalhem meu caminho. Desde o início, o pessoal do rock me
achava muito MPB e a MPB me achava muito rock. Gaúchos me achavam uma banda
nacional e o Brasil me achava uma banda gaúcha. Conheci o It 's All Red através
do Rafa (guitarrista) e achei legal, ponto final". Rafael trabalhou nas
gravações de “Sem Piada Nem Textão” e acompanhou a pré-produção do disco
“Revendo o que Nunca Foi Visto”, ambos trabalhos de Gessinger, daí o elo.
➤ Assista "Pertencimento,
Pt.2" - Its All Red feat Gessinger:
Um retorno às raízes, mas
sem limites
Musicalmente, o It’s All
Red retoma com orgulho sua identidade como uma das pioneiras do metalcore brasileiro,
mas sem se limitar às fronteiras do gênero.
“Somos Metalcore. Fomos
um dos pioneiros do gênero no Brasil, mesmo tendo influência de outros estilos
em alguns trabalhos. Este álbum resgata com orgulho nossa identidade, mas agora
expandido com pitadas marcantes de Prog Metal e Death Metal e ainda além, como
uma banda que nasceu do Metalcore e se permite até hoje agregar qualquer outro
subgênero do Pop, Rock e Metal ao seu som”, explica Rafael Siqueira.
Entre as referências
citadas pela banda estão Parkway Drive, Gojira, In Flames, Killswitch Engage,
Sevendust e Trivium, além de nomes como Alice In Chains, Bring Me The Horizon,
Death, Faith No More, Metallica, Nevermore, Nine Inch Nails, Sepultura e Tool.
Depois de uma década, o
retorno do It’s All Red ao mundo dos álbuns não se limita a reafirmar o lugar
que a banda ocupa na história do metalcore brasileiro. O novo álbum parte dessa
identidade para explorar diferentes texturas, referências e narrativas,
conectando experiências íntimas a episódios históricos e questões universais.
“Este trabalho homônimo
não é contemplação calma; é o nosso disco mais denso e verdadeiro.”
— Tom Zynski, vocalista
Sobre o It's All Red Formada
em Porto Alegre (RS), em 2007, o It's All Red é uma das bandas pioneiras do
metalcore brasileiro. Ao longo de sua trajetória, construiu uma identidade
marcada pelo peso, pela melodia e pela liberdade para incorporar diferentes
vertentes do metal, mantendo-se em constante transformação.
A banda tem três álbuns
de estúdio — Vicious Words From The Heart (2007), The Natural Process Of...
(2010) e Lead By The Blind (2015) — além de uma série de EPs e singles que
ampliaram sua sonoridade e experimentações.
Entre os momentos mais
emblemáticos de sua trajetória está a abertura do show do Megadeth em
Porto Alegre, em 2016. O It’s All Red não chegou ao palco por uma simples
indicação da produção: foi escolhida pelo próprio Dave Mustaine entre as
bandas consideradas para aquela noite, recebendo o aval pessoal do líder do
Megadeth. À época, Rafael Siqueira destacou o significado da escolha, enquanto
a imprensa registrou que a banda havia sido selecionada pelo próprio Mustaine.
(Whiplash). O It’s All Red também dividiu palcos com nomes como Cavalera
Conspiracy, Paul Di’Anno, Ratos de Porão e Raimundos, consolidando sua presença
na cena pesada brasileira.
A formação atual reúne
Tom Zynski (vocais), Rafael Siqueira (guitarra e baixo), Daniel Nodari
(guitarra) e Renato Siqueira (bateria).
Acompanhe It's All Red em itsallred.com


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