quinta-feira, 13 de setembro de 2018

In Lo(u)co: THUNDER METAL: Sepultura, Dorsal Atlântica e Vulcano (03/05/1986)


Por: Adalberto Belgamo

Uma das coisas mais legais do “mundo” underground e/ou alternativo são as amizades, que nascem e se perpetuam pela vida toda.  São amigos (muitas vezes “irmãos e irmãs”!), que você tem para o sempre. Logicamente, crescemos, assumimos responsabilidades e não dá para manter o contato constante com as pessoas, mas, se há algo de bom (risos) nas redes sociais é a oportunidade de retomar velhas amizades e retomar a camaradagem e as risadas com os brothers  e as sisters.

Na metade da década de 80, o Metal brazuca finalmente dava a cara para bater.  Especificamente falando sobre o interior de São Paulo, pipocavam shows. No mínimo, dois ou três festivais (ou eventos, como está na moda - risos) ocorriam pelo “interiorzão”. Nestes eventos, nasceram amizades, que cultivo até hoje. Os “minos” e as “manas” (risos) de cidades como Jaboticabal, Bauru, Ribeirão, Monte Alto, Americana, Limeira e São Carlos (entre tantas outras) sempre se encontravam nas rodoviárias e nos shows da vida. Consequência disso: amizades que beiram os 30 anos ou mais! Bons tempos.

O contato com as bandas ultrapassava a linha de fãs com os “artistas” (risos). Era comum, elas se hospedarem nas casas dos roquistas e/ou redbenguis, quando vinham para os festivais. Falando de Texascoara (Araraquara - SP), o “sister” (risos) Talo era o que mais organizava shows na cidade. Festivais memoráveis. Muitas histórias para contar. Mas antes da Nuclear Egg Productions, o show mais marcante foi organizado pelo Marcote (R.I.P.), primo do Zema do Vulcano.

Ele encarou a difícil missão de organizar um festival com bandas “de nome” da época (até hoje!), com poucos recursos, no famoso “faça você mesmo (DIY)”.  A cidade estava acostumada a receber os nomes do chamado Rock Nacional. As bandas “mainstream” passavam quase todos os meses pelo município. Brincávamos em dizer que, por exemplo, os Titãs moravam aqui (risos). Patrocínio não faltava.



No entanto, Metal? Capirotagem? Cabeludos? Em uma cidade conservadora? A insistência venceu! E eis que tivemos o famoso THUNDER METAL! Vulcano, Dorsal Atlântica e Sepultura... no mesmo dia! A cidade foi invadida pelos “cabeludos” com suas calças aperta-bagos (risos), coturnos, correntes e arrebites! A horda de preto chamava a atenção da população que, até aquele momento, nunca tivera contato com o lado “sombrio” (risos) do Rock. Havia os “malucos” locais, mas a maioria ainda estava na viagem de “doce” de Woodstock (risos).
Antes de ir para o Gigantão (um ginásio enorme, onde o show ocorreria), resolvi passar na casa do Marcote para ver as bandas. Lembro-me da mãe dele reclamando que a “molecada” (risos) não parava de comer. Não aguentava mais fritar bifes! (risos). Os irmãos Cavalera estavam em cima de uma árvore, despertando a curiosidade (e o medo - risos) dos vizinhos.

Depois de jogar conversa fora, passei na casa de uns amigos e fomos andando (pobreza...que continua até hoje - risos) para o Gigantão. Ele fica em um dos bairros mais nobres da cidade, ao lado da Arena da Fonte, casa da gloriosa Ferrinha (Ferroviária de Araraquara). Imaginem a cara das pessoas vendo verdadeiras filas indianas subindo a Avenida Bento de Abreu, que na época era uma região ainda residencial do pessoal “high society” da cidade (risos). Apesar do “susto” (risos), reinava a tranquilidade. Anos mais tarde, conversando com alguns espectadores (risos), demos muitas risadas, pois a preocupação maior era a de alguém acionar os “hómi” e todos passarem por corretivos e humilhações. Coisas que já deveriam estar enterradas no passado, porém alguns roquistas e redbenguis acéfalos insistem em pedir a volta da repressão. Decepção. Os mais novos não tem noção do que é levar uns “colabrincos”. Os mais experientes (risos) devem ter algum tipo de fetiche sexual (risos). Voltemos à musica.

Guilhotina (Valinhos/SP) e Aggressor (Campinas/SP) fizeram bons shows e cumpriram muito bem o papel de abertura para (nada mais... nada menos) para Sepultura, Dorsal e Vulcano!  O Sepultura vinha com toda a força do “Bestial Devastation” (1986) e “Morbid Visions” (1987) (que seria lançado em novembro do mesmo ano), o Dorsal com o material do “Antes do Fim” (1986) (que também seria lançado naquele ano) e o Vulcano com o “Live!” (1985), um dos discos mais importantes da cena brasileira de todos os tempos, um clássico!

Carlos Lopes (ou Vândalo na época - risos) destilava toda a revolta de uma geração, que cresceu sob as asas da repressão. Performance animalesca! A fúria das letras impressionava ao vivo! O Sepultura já apresentava características que, mais tarde, tornariam a banda um fenômeno mundial. Uma delas era a agressividade. Death/Black Metal insano, o qual é influência e referência para muitas bandas da cena extrema atual.

O Vulcano, além da questão musical, representava a resiliência e a insistência em um sonho! Independência da arte na forma mais pura. Jogavam-se na música extrema em uma época, na qual ela não estava tão em evidência. O show reproduzia fielmente o “Live!”. A introdução foi feita (cantada) por praticamente toda a plateia do festival. Não chegou a encher o local, mas havia um público considerável, levando-se em consideração o caráter underground do festival.
Noite histórica e memorável! Após o show, pegamos o caminho da roça (risos), passamos em um “carrinho de hambúrguer” (atualmente o “gourmetizado” food truck - risos), nos enchemos de gordura, carne prensada, condimentos e refrigerante. Tudo saudável! (risos)

Antes de terminar, gostaria de agradecer o Luis Carlos Conceição (o sister Talo - risos) por confirmar algumas informações, que o tempo e as capirotagens “quase” apagaram do cérebro, envolto por uma calvície “experiente”! (risos)

Inté!

*Adalberto Belgamo é professor, atuando no museu (sem ser peça... ainda - risos), colaborador do Arte Metal, além de ser Parmerista, devorador de música boa, livros, filmes e seriados. Um verdadeiro anarquista fanfarrão.

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